domingo, 29 de abril de 2012

INSENSATEZ

Lá vai um poesia que escrevi há alguns anos, mas que pode servir pra ajudar a entender o que não se explica...

Ela vem devagar, quase sem querer. 
Sem sentir, sem sofrer, quase sem falar, vem calada.
Tem a força do que é, sem precisar ser. 
É um nada, um vazio incompleto; é um tudo, imerso e repleto.
Calor dos homens, amor sem nomes... é paixão!!!


Tudo o que compreendemos, ou que pensamos que assim seja, não refletem a sua real essência. 
Aquele suspiro, desejo, 
O gosto de um beijo, 
O cheiro, malícia no ar, 
O tremor de um toque, 
O calor de um olhar, 
Palavras sem pudor, que não exigem retoque, que tem uma mira certeira, e causam furor.
Frases desconexas que erram, por medo de não conseguir acertar.
Ideias que levam ao êxtase, catarse que surge quando menos se podia esperar.
Tudo isso, e só isso, revelam a mais enlouquecida certeza: é paixão!!!

quarta-feira, 14 de março de 2012

AS CARTOMANTES (Parte 1)


O casamento de Raul e Ana estava com os dias contados. Havia adquirido o hábido de ficar até tarde no trabalho só para não ter que chegar cedo em casa e discutir com a mulher, ouvir ela dizendo que não aguentava mais, que ele precisava mudar, que tinha que achar um emprego melhor, que deviam procurar um terapeuta, que isso e aquilo. Na verdade, ele não aguentava era a insatisfação constante. Até já estava se convencendo de que o casamento não tinha mais jeito, e de que o melhor era por um ponto final. Só não tinha certeza disso, porque ainda gostava da vida que levava ao lado dela, do carinho que sentia por Ana.
Numa certa tarde, ouviu Nara, uma colega do escritório, comentando com Beto, seu amigo e também colega, que tinha conhecido uma cartomante sensacional. Fez um relato minucioso das previsões e apontou diversas situações em que a vidente havia acertado o seu passado. E ouviu ela concluir a conversa com um tom emocionado:
- Sinto que sou outra pessoa! Começo a ver uma luz no fim do túnel...
Beto virou-se para Raul com um certo olhar de deboche e, em resposta, limitou-se a resmungar um "que bom!", e voltou a trabalhar. Durante toda a tarde, Raul não parava de pensar no que havia ouvido, e, ao final do expediente, quando Nara foi embora, chamou o colega:
- Beto, o que você acha de marcar uma hora com ela.
- Com ela quem?
- A cartomante.
- Você tá louco? Essas pessoas são estelionatárias e não dizem nada que preste. Se acertam alguma coisa, saem no lucro. No mais, só servem pra enganar trouxas!
- Mas é que...
- Não tem essa história de mas... não vou e está encerrado!
- Cara, sério, não custa matar a curiosidade. Eu pago pra você também!
Depois de uns minutos de insistência, Beto concordou, afinal de contas não ia sair do bolso dele o valor daquilo que ele chamava de "perda de tempo". Ligou para Nara, anotou o telefone, e em poucos minutos já haviam agendado um horário com a cartomante para a semana seguinte.
Chegado o dia, antes de ir para o trabalho, foram à casa da vidente. Ela mesma abriu a porta, e indicou um sofá na sala para que um deles sentasse, enquanto o outro seria atendido. Raul foi o primeiro.
Sentado numa cadeira na mesa da cozinha, ficou um pouco decepcionado, pois o lugar não possuía a aura de mistério que imaginava. Os únicos detalhes que denunciavam o local era um incenso que fora acendido e posicionado sobre a mesa e um baralho de cartas de tarô muito velho, o qual Leonora embaralhara e pedira para ele cortar.
Depois de algumas informações, as quais ele considerou inúteis, ela disse:
- Vamos falar de aspectos da vida pessoal. Quanto ao seu relacionamento, presumo que não esteja bem.
Ele, um pouco desconfiado, perguntou:
- Você... você está vendo isso nas cartas?
- Na verdade, foi você quem me disse há uma semana atrás, por telefone.
- Ah, é verdade - respondeu, um pouco decepcionado.
- Pois bem, vamos lá... hummm... olhe essa carta! Ela diz que alguém aparecerá em sua vida muito em breve.
- Breve quando? Eu ainda vou estar casado?
- Muito em breve... antes que você possa esperar.
- Mas como, eu não quero trair minha mulher.
- Raul - disse Leonora, segurando as mãos dele, e olhando-o fixamente. - Você sente falta de algo, de uma emoção, de um beijo capaz de tirar o fôlego, de te levantar do chão, e é isso que está faltando em seu casamento. Empolgação, vida!!! Pois bem, essa pessoa que vejo é morena, olhos claros, e não é da Capital.
- Tudo bem, mas eu não conheço ninguém com essas características, não estou interessado em ninguém, eu amo minha mulher, e...
Nesse instante, o telefone tocou. Ela pediu licença e atendeu. Raul ficou ouvindo desinteressado a conversa de Leonora com uma pessoa que ao final do telefonema identificou-se como Ana, o mesmo nome de sua esposa. Ela insistia que precisava ser atendida, e a cartomante dizia que não tinha horário naquela manhã.
- Está bem, vou abrir uma exceção, Ana. Meio-dia então! - e desligou o telefone, pedindo desculpas a ele.
E continuou:
- Onde eu estava... ah, sim... então, você conhecerá alguém e essa pessoa irá mexer com sua vida!
Conversaram mais um pouco sobre isso, pagou a consulta, e dirigiu-se à sala. Lá chegando, o amigo viu no rosto de Raul a decepção. Pensou em dizer, "eu avisei", mas preferiu sorrir com um ar de deboche. Era a sua vez de ser atendido.
Raul, sozinho na sala, pegou uma revista e ficou aguardando. Minutos depois, a campanhia tocou. Ele aguardou uns instantes, e como ninguém atendeu, decidiu abrir a porta. Uma jovem alta e bonita entrou na sala, falando que era Ana, e que havia marcado uma consulta. Ele disse para ela esperar na sala, explicou também ser um cliente, e que Leonora estava atendendo. Sentaram-se um de frente para o outro, cada qual em um sofá. Volta e meia ele esticava os olhos e a observava, sem muito interesse. De repente, ela levantou-se, tirou os óculos escuros e a jaqueta, e ele ficou extasiado com o corpo de Ana, que vestia uma roupa de ginástica delineando cada parte do seu corpo. A cor de seus olhos era de um azul vivo e o cabelo escuro contrastava, de uma forma intensa, a energia juvenil daquela mulher. Não conseguindo se conter, conversou de forma animada com ela, falaram sobre música, viagens, e outros assuntos, o que fez com que a hora passasse rapidamente. Perto do meio-dia, Leonora entrou na sala com Beto, e todos se despediram. Na saída, Raul olhou para trás e percebeu que a jovem também o observava. Ficou envergonhado!
No caminho para o trabalho, conversaram sobre a cartomante, e Beto só reclamava. Dizia que tinha perdido uma hora de sua vida graças à insistência do amigo. Raul, a seu turno, confidenciou a ele o que Leonora havia dito sobre a morena de olhos claros que apareceria em sua vida.
- Beto, pode ser ela. Aquela moça que estava na sala comigo!!!
- Sim, agora você vai começar a achar que toda mulher que tiver olhos claros e cabelos escuros quer dar pra você! Por favor!!!
- Mas é que... ah, não sei, acho que você tem razão! É loucura da minha cabeça...
Foram almoçar num restaurante próximo ao escritório, e quando estavam pagando a conta, o celular de Raul tocou:
- Alô, Raul?
- Sim, quem fala?
- É a Ana, a gente se conheceu na cartomante.

CONTINUA...

sábado, 25 de fevereiro de 2012

AS CARTOMANTES (Parte 2)

Foram almoçar num restaurante próximo ao escritório, e quando estavam pagando a conta, o celular de Raul tocou:

- Alô, Raul?

- Sim, quem fala?

- É a Ana, a gente se conheceu na cartomante.

Sentiu um calor subindo até o rosto, e o coração pulsava sem parar. E disse:

- Como você... – engoliu a saliva, e prosseguiu: - Como você conseguiu meu telefone?

- Ai, desculpa... primeiro, queria dizer que a Leonora não tem culpa de nada. Depois da minha consulta, fiquei insistindo, e fui tão chata com ela, que acabou concordando em dar o número do teu telefone para mim. Olha, ela disse que ia ligar para te avisar, mas eu não aguentei, e acabei ligando antes. Desculpa mesmo. Mas, por favor, deixa eu explicar: é que depois que te vi, confesso que não conseguia parar de pensar na nossa conversa, em ti, enfim, quase nem prestei atenção na consulta, até a hora em que ouvi a Leonora dizer que eu havia conhecido recentemente um homem que mudaria minha vida. Sei lá, fiquei desnorteada, perguntei se poderia ser você, e ela disse que não sabia. Bem, o fato é que senti que queria te conhecer melhor, queria te ver de novo e... ai, desculpa, não consigo parar de falar, não é?

Raul, ainda atônito, e sem saber o que dizer, limitou-se a balbuciar alguma coisa ininteligível, e ela continuou:

- Bem, não sou acostumada a fazer isso, mas eu queria saber se a gente podia sair para conversar um pouco. O que você acha?

Sem pensar direito, concordou com o convite, esquecendo-se completamente de sua Ana. E ela acrescentou:

- Que tal hoje? Pode ser hoje à noite?

- Hoje? Não sei, é complicado, eu...

E ficou mudo, sem saber o que dizer. Ela completou:

- Já entendi. Você é casado!?

Um silêncio constrangedor se fez presente durante a ligação, até que Raul decidiu responder, num tom lamurioso:

- Sim, eu sou!

- Então, desculpa. Não vou te incomodar.

- Não, espera! Acho que a gente precisa mesmo conversar. Tenho algumas coisas pra te dizer, e gostaria de ouvir outras de ti. Vamos fazer o seguinte, eu saio do meu trabalho no final do dia, e a gente combina de se encontrar em algum lugar. Só não vou poder te convidar pra jantar. Espero que você entenda.

Ela pensou um pouco, e acabou concordando. Marcaram em um bar longe de sua casa, e próximo da academia dela. Raul viu que Beto o observava, mas decidiu não falar nada para o amigo. Não queria ouvir as suas indagações irônicas, e, quando ele perguntou quem era, limitou-se a responder:

- Ninguém importante. Apenas um cliente.

Ao sair do trabalho, ficou excitado com a expectativa do encontro secreto, e decidiu comprar preservativos; sentia que deveria estar preparado pra tudo. E divertiu-se com seus pensamentos. Lembrava que não os usava há alguns anos, e sentiu-se envergonhado quando saiu da farmácia com o pacote nas mãos, abrindo-o, e colocando uma das camisinhas em sua carteira.

Quando chegou ao encontro e a viu, percebeu que ela ainda trajava a roupa de academia que o havia enlouquecido naquela manhã. Como era linda! Raul notou que era mais alta do que pensava, quase tanto quanto ele. Falaram sobre o que Leonora havia mencionado em cada uma das consultas, da coincidência de seu encontro, e do quanto se impressionaram um com o outro. O tempo passou, e quando, finalmente, ele resolveu ir embora, ela insistiu para que ficasse mais um pouco. Eram quase nove horas da noite, e lembrou ter dito à esposa que iria passar na casa de um amigo antes de voltar para casa. Decidiu ficar alguns minutos a mais, mas teve medo de encontrar algum conhecido, até que Ana sugeriu fossem para o carro dela, o qual possuía uma película escura nos vidros, impedindo que as pessoas que passassem pudessem vê-los lá dentro.

Pagaram a conta e dirigiram-se para o automóvel. Logo que as portas se fecharam os dois abraçaram-se e beijaram-se de uma forma passional, irresistível, um beijo longo, molhado e cheio de desejo. Ele sentia um cheiro doce de canela que vinha da boca daquela menina que mal conhecia, e lembrou-se que há muito tempo não sentia algo igual por sua Ana. Tentou desvencilhar-se dela, mas não conseguia. Em realidade, não queria. Precisava daquele beijo... precisava de mais. Desceu a mão direita até a altura da cintura da jovem, e sentiu a firmeza de sua barriga, a curva de sua cintura. Sabia que estava a um passo de ultrapassar o limite do que entendia ser possível controlar, quando, sem pensar, enfiou sua mão no meio das pernas de Ana, que, energicamente, parou de beijá-lo, e o repeliu. Quando olhou para ela, apesar da penumbra, pôde perceber a vermelhidão em seu rosto, a respiração ofegante, e o desejo que emanava dela.

Sem perceberem, já estavam novamente abraçados, beijando-se de uma forma explosiva, só que dessa vez foi ela quem tomou a iniciativa, e começou a alisar o corpo de Raul. Apertava os braços dele, sentindo seus músculos, e deslizando as mãos para as suas costas. Foi quando percebeu que ela autorizara qualquer investida dele. Olhou para fora, e não viu ninguém. Em poucos minutos estavam sem as roupas. Ela subiu sobre ele, que tentava se desvencilhar para procurar um preservativo naquela escuridão, tateando a sua volta à procura da carteira; no entanto, já sentia que a penetrava. Ela o agarrava com força, arranhava suas costas, e dizia que ele seria o homem de sua vida, que estava apaixonada, e, mesmo não o conhecendo direito, já o amava. E sussurrou: - "Ai Raul, eu quero ter um filho com você...".

Ao ouvir isso, ele a afastou, completamente apavorado. E pensou: “Que doente! Um filho?!”. O que estava fazendo? Não, não queria que fosse assim. E ela parecia cada vez mais descontrolada, voltando a escalar seu corpo, envolvendo-o com as pernas que o apertavam pelas costas naquele lugar minúsculo. Mal conseguia se mover. Então, não vendo outra alternativa senão afastá-la, empurrou-a violentamente, e gritou com ela:

- Pare!!! Você está louca!

No mesmo instante, ela o olhou com raiva, e sem que pudesse defender-se, sentiu um violento tapa no rosto. Decidiu não revidar, apenas segurar as mãos de Ana.

Em questão de segundos, olhou para fora do automóvel, e viu algo que o deixou apavorado.

CONTINUA...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

AS CARTOMANTES (Parte Final)


- Pare!!! Você está louca!

No mesmo instante, ela o olhou com raiva, e sem que pudesse defender-se, ele sentiu um violento tapa no rosto. Decidiu não revidar, apenas segurar as mãos de Ana.

Em questão de segundos, olhou para fora do automóvel, e viu algo que o deixou apavorado.

Um carro da polícia vinha em direção ao veículo em que eles estavam, e lá dentro ele mal conseguia manter imóveis as mãos daquela mulher raivosa. Se os policiais os vissem pelados, um sobre o outro, certamente levariam os dois presos. E pior: o que dizer para a sua esposa?

A jovem remexia-se em cima dele, e mostrava-se muito indignada e ofendida, dizia que ia gritar, e ele prometeu largá-la, se ela mantivesse a calma. Com a cabeça, a moça assentiu, e, mesmo nua, fez menção de sair do carro. Raul a conteve a tempo, e os policiais passaram, sem perceber o que acontecia no interior do veículo. Após a viatura dobrar a esquina, vestiram-se, e ele pediu desculpas. Precisava sair dali, e assim que colocou os pés para fora, ainda a ouviu perguntar se ele procuraria por ela. Raul foi embora envergonhado consigo mesmo, e sequer se dignou a responder, limitando-se a olhar nos olhos de Ana, balançando a cabeça para o lado, e sentindo-se a pior pessoa do mundo.

Ao chegar em casa, mal conseguiu encarar a esposa. Tomou um banho, disse que não estava se sentindo bem, e foi deitar. Na manhã seguinte, quando estava chegando ao escritório, recebeu uma ligação de um número desconhecido. Ficou em dúvida se deveria atender, mas acabou aceitando a chamada. Reconheceu, de imediato, a interlocutora:

- Raul, sou eu. Desculpa te ligar tão cedo, e também queria me desculpar por ontem. Não sei o que me deu. Bem, sabe o que é, eu estava indo pra aula, e bati com o carro. Não conseguia pensar em mais ninguém. Você podia vir me ajudar, sei lá, ficar comigo, registrar a ocorrência, essas coisas? Eu estou aqui na rua...

Ele nem quis ouvir. Desligou o telefone imediatamente. Já tinha definido: ela era completamente louca! Mal o conhecia, sabia que ele era casado, e mesmo assim queria que ele resolvesse seus problemas pessoais? Maluca total!!!

As ligações continuaram, no trabalho, em casa, sem que ele as atendesse, até que cessaram depois de alguns dias. E os meses passaram...

Raul e Ana iniciaram uma terapia, mas a relação dos dois estava cada vez pior. Ela andava muito distante, parecia que o evitava. Não sabia dizer bem o que era, mas ele também havia perdido o interesse na mulher, achava tudo sem graça ao lado dela. Eram desconhecidos morando sob o mesmo teto.

Próximo ao final do ano, durante uma conversa trivial no trabalho, enquanto tomavam um café, Beto lembrou de um assunto que estava há dias para falar com o amigo. Disse que tinha a indicação de uma cartomante, amiga de sua mãe. Dona Missi, como era conhecida, era uma senhora que tinha um dom muito especial. Além de ler as cartas, ela pressentia coisas. Reconheceu que não acreditava em nada disso, mas que cedera à insistência da mãe e concordou em conhecê-la. Ficou de queixo caído com as previsões dela, dizendo que algumas até haviam se realizado.

Desta vez, Raul não se mostrou interessado, considerando o que havia acontecido meses atrás, mas, diante da empolgação do amigo, que sempre se mostrara tão cético, decidiu marcar uma hora, até porque o local era próximo ao seu trabalho, e ficou realmente curioso. Dois dias depois estava sentado em frente à vidente. Dona Missi não deveria ter mais do que 60 anos, muito magra, os cabelos desalinhados numa combinação de cores branco-amarelados, e a pele enrugadíssima, características que conferiam àquela senhora uma feição muito envelhecida e sombria. Fumava de um jeito incessante, praticamente acendendo um cigarro no outro. O ambiente fedia, pois além do odor do tabaco, o lugar abrigava alguns cachorros na sala ao lado. O calor e o mau cheiro do local traduziam uma sensação extremamente desagradável.

Entretanto, não tinha como negar que aquela cartomante apresentava todo o ar de mistério que não havia visto em Leonora, mas isso não foi motivo para deixá-lo satisfeito. Ao contrário, fazia com que se sentisse desconfortável. Durante o atendimento, ora ela olhava para as cartas, ora fixava-se num vazio, como se estivesse vendo alguém, e, de um jeito intrigante, emendava uma frase na outra. Mais de uma vez, Dona Missi mencionou uma mulher que convivia muito com ele. Dizia que ela fazia parte do seu cotidiano, e que era uma pessoa fútil e egoísta, e que, mesmo sendo casada, possuía um amante. "Um não, dois!", tratou de corrigir-se. E não parava de repetir isso.

Raul tentava não pensar em Ana, e, de repente, a vidente fez uma pausa. Passados alguns segundos, perguntou se sua relação andava bem, porque as cartas diziam o contrário. Raul apenas limitou-se a negar, e ela, de pronto, afirmou que o fim do relacionamento dele estava próximo.

O silêncio tomou conta do ambiente. Ela pediu para ele cortar o baralho mais uma vez, e já sentia o suor escorrendo pelo rosto. Estava começando a pensar que deveria pôr um fim naquilo. O ar que respirava, morno, já começava a deixá-lo tonto. Não via a hora de sair dali, parar de ouvir tantas informações que o entristeciam, e tentava, em vão, olhar nos olhos da senhora. Ela parecia estar em transe. E continou, dizendo:

- Meu jovem, as cartas não mentem. As pessoas, sim! Mas você é uma alma forte, e vai saber superar. Ainda mais porque vejo uma mulher se aproximando de sua vida. Ela fará toda a diferença. Ela é muito bonita, não é muito alta, morena, tem uma filha...

Foi quando ele interrompeu a consulta, e disse que precisava ir embora. Inventou que tinha uma reunião, e que havia esquecido. Ela o olhou fixamente, e pela primeira vez pôde perceber que os olhos eram claros, mas cada um possuía uma coloração diferente. Ela assentiu, informando o preço da consulta, e ele pagou. Antes de sair, ela o segurou pelo braço, e disse que se ele tivesse interesse, talvez pudesse ajudá-lo a encontrar essa tal mulher. Ele achou melhor concordar, e Dona Missi concluiu:

-Eu vou lhe enviar uma mensagem com um número de telefone.

Ao sair, sentiu um alívio imenso. Precisava ir embora, respirar o ar puro, e parar de sentir aquele cheiro que o deixava cada vez mais agoniado.

Ao chegar no trabalho, Beto estava num canto, calado. Ele perguntou o que tinha acontecido, até que o amigo se abriu com ele. Disse que estava tendo um caso com Nara, sua colega de escritório.

- Mas ela é casada? - replicou Raul.

- Pois é, e eu era o amante - disse ele, indignado. - Pelo menos eu pensava que era. Agora descobri que não sou o único. Sei que parece ridículo, mas eu achava que significava alguma coisa pra ela.

- Mas, como... - e lembrou-se do que a cartomante havia lhe dito minutos atrás, referindo-se a alguém que ele convivia, e que tinha vários amantes. Bobagem, pensou, mas não pôde negar que a ideia lhe trazia uma sensação de alívio, considerando que até já começava a ter uma leve desconfiança de Ana.

Conversaram mais um pouco e acalmou o amigo, que parecia desolado. O dia transcorreu normal, e, ao final do expediente, Raul recebeu, por celular, uma mensagem da cartomante, com um nome e um número de telefone. Ficou curioso, e resolveu ligar. Como quase todos os colegas já haviam ido embora, dirigiu-se até uma pequena sala, nos fundos do escritório, para ter mais privacidade. Ligou, aguardou um pouco, e alguém atendeu:

- Carol? - disse ele, adiantando-se.

- Sim? - respondeu ela, com uma voz delicada.

- Oi, meu nome é Raul. A Dona Missi me deu o teu número.

- Ah... oi... É, ela me falou de você - respondeu, parecendo indiferente.

- Pois é, na realidade, não sei bem por quê!

- Sei lá, acho que pra gente se conhecer.

Ele começou a ficar excitado com a ideia. Talvez conhecer outra mulher pudesse ajudá-lo a se sentir mais empolgado, feliz, vivo! E aquela conversa realmente o transtornava. E continuou:

- Sim, acho que é isso. A gente podia sair pra tomar um chopp, e se conhecer. O que você acha, Carol? Aliás, seu nome é lindo.

- Obrigada! Bem, eu topo. Mas olha só, já vou deixando claro que não sou mulher de uma noite só. Sou uma pessoa séria. Tenho uma filha para criar, e a pessoa com quem eu me relacionar tem que entender que minha filha é mais importante, precisa de um pai, e não só de um cara que está saindo com a mãe dela.

Desligou o telefone na hora. Não era isso que tinha em mente. E, afinal de contas, sua esposa não merecia isso. Sempre foi uma companheira muito leal e dedicada. Virou-se, e foi quando percebeu aquele vulto próximo à porta. Sua mulher, Ana, chorava, e pôde ver em seu rosto o olhar de decepção. Ela não disse nada, tirou a aliança, deixou sobre uma mesa, e pediu, aos prantos, que ele não voltasse para casa aquela noite. E finalizou:

- Acabou, Raul!

Ele tentou ir atrás, segurou-a pelos braços, ela gritava com ele. O amigo Beto interveio, segurou Raul, e ela foi embora, desesperada.

Depois de alguns instantes, Raul acalmou-se, olhou para o amigo e disse, num tom lamurioso, mas decidido:

- Beto, por favor, nunca mais me fale em cartomantes.

FIM

terça-feira, 15 de novembro de 2011

SONHOS INTERROMPIDOS

Ontem foi um dia muito triste para muita gente. Faleceu Israel, um cara que sequer cheguei a conhecer, mas que era parte importante da vida de pessoas que amo. Morreu assim, de repente, talvez sem dor, mas que deixou uma outra, de saudade, em todas as vidas que tocou. De um jeito estranho, acordei muito triste, porque ele era mais do que uma pessoa boa, como já ouvi repetidas vezes. Ele era o amor de uma mãe, que sonhava em vê-lo feliz, e que vi chorando, sem entender por que as coisas funcionam assim, tentando achar alguma explicação no olhar dos outros filhos, que não sabiam o que dizer, porque não havia o que ser dito. Amor de uma mulher que sonhava e fazia planos de casar daqui a pouco, quem sabe até ter filhos com ele. Não era pra ser! Não agora, quem sabe mais adiante. Morreu um amigo de muitos, que vi em fotos com um sorriso não só de amigo, amor de irmão.

Sabe, a vida é realmente muito curta. A gente olha pra ela com os olhos fechados, faz planos, sonha com o futuro, do jeito que a gente quer que seja. Abre os olhos, e segue adiante. Muitos, não saem do lugar, ainda não entenderam que a direção é pra frente. Dos que saem, normalmente utilizam esses sonhos como um rascunho do caminho, uma direção indicando para onde ir. Só isso! Porque o resto... bem, o resto é uma grande surpresa.

Não tenho muito a dizer numa hora em que a única coisa que se consegue fazer é chorar. Aí, é preciso o silêncio, a reflexão, a oração, que considero de extrema importância, para quem foi, e, talvez, até mais para quem fica. Não há o que explicar, não importam os porquês, não existe um remédio pra passar a dor da saudade, além do tempo. Não nesse momento. Mas tenho a certeza de que tudo acontece por um motivo, e quem somos nós para não acreditar em uma razão justa, em uma explicação de que aquele amigo veio para fazer tudo que fez, e ir embora quando a missão foi cumprida.

Sonhos interrompidos pela ausência física... sim! Mas é inegável que uma existência marcada pela saudade, que traduz um amor insubstituível naqueles que continuam aqui, só quer dizer uma coisa: ele fez tudo que deveria ter feito. E o fez muito bem!

Como disse, ontem foi um dia muito triste para muita gente. Hoje ainda é. Mas a vida continua, e tudo é muito rápido. Daqui a pouco, quando menos esperarmos, nos encontraremos, e quem sabe um dia eu também possa te conhecer e te chamar de irmão.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

MEU LUGAR OCULTO

"La Piel Que Habito", título original do novo filme de Pedro Almodóvar, é daquelas películas que impressionam não só pelo choque de surrealismo e alguns toques de humor negro, mas pela pecularidade de uma história original, e questionamentos dramáticos bem distantes do lugar comum.
Para quem não gosta do cineasta, e não pretende ver o filme, vou fazer uma pequena sinopse, para entenderem do que vou falar. Mas não se preocupem aqueles que vão assisti-lo, pois não contarei nada que possa comprometer qualquer expectativa, até porque, em minha humilde opinião, a obra de Pedro Almodóvar tem características tão individuais, que a surpresa, a sensualidade e, até mesmo, o choque são personagens a parte.
A história narra o cotidiano de um famoso cirurgião e cientista, interpretado por Antônio Banderas, que faz experiências para criar uma pele humana diferente, mais resistente e imune a queimaduras. Por questões éticas, os colegas de profissão posicionam-se contra as experiências em humanos, sem saberem que ele já obteve êxito na descoberta ao utilizar como cobaia, durante alguns anos, a linda Vera, que vive como prisioneira dentro da mansão do médico, sendo vigiada constantemente. Tudo vai se desenrolando sem muita empolgação, até que os motivos da prisão domiciliar, os traumas decorrentes pela morte da mulher e da filha do cientista, e todos os dramas vividos pelos personagens impulsionam o espectador para dentro da trama.
Poderia discutir inúmeras questões levantadas no filme, como por exemplo a falibilidade humana traduzida pela vingança, ou desdobramentos multifacetados da violência sexual, e a dualidade entre amor e ódio. Mas não vou fazer isso, até porque teria que contar o filme, o que, como disse, perderia toda a graça! A minha pretensão com esse texto é abordar, de forma sucinta, uma única questão que se mostra tão singela, e que quase passa despercebida.
A personagem Vera, interpretada pela linda atriz Elena Anaya, sofre um drama de identidade que a direciona para uma sexualidade que não lhe pertence, na medida em que, à toda evidência (e é preciso assistir ao filme para entender essa obviedade), não faz parte de sua essência. Todavia, o que causa estranheza é a calma com que lida com a situação, haja vista que nada justificaria a punição a que esteve sujeita durante anos, e que deixou "marcas" definitivas em seu corpo. Mas, considerando a conclusão a que chegarei, ninguém é responsável pelos atos dos outros. E, em certa parte do filme, ela está assistindo a um programa de televisão, em que uma praticante de Ioga destaca a importância de encontrarmos dentro de nós mesmos um lugar onde ninguém pode alcançar, intocável, e no qual podemos nos refugiar para mantermos nossa verdadeira essência. Acredito que nesse ponto é que reside a explicação para a aparente tranquilidade da personagem.
A Ioga é um método eficaz para isso. A simples meditação, de qualquer forma, e bem conduzida, também auxiliaria nesse contexto. O fato é que não há dúvidas da existência desse lugar, o qual, de uma forma abstrata, protege-nos de qualquer coisa, por vezes, até de nós mesmos. Tenho a certeza de que, para encontrá-lo, há um verdadeiro labirinto, do qual somos os únicos que conhecemos o caminho. É nesse lugar que repousa a paz de espírito, resultado da tolerância e humildade a que somos testados todos os dias.
No filme, até certa parte, convenci-me de que ela havia encontrado essa paz interior, essa liberdade de espírito, esse lugar no qual ninguém poderia alcançá-la, e onde estaria protegida de qualquer mal. Entretanto, ela o fez para sobreviver, na constante agonia que tinha de tirar a própria vida. E só isso! Não me parece tenha compreendido todo o contexto, apesar da dramaticidade da história.
Para mim, a lição de se ter essa paz interior remete a conclusão diversa: podem aprisionar nossa liberdade, afligir o nosso corpo, mas, quando repousamos à noite, temos que ter a consciência limpa para que possamos divagar com pensamentos leves e bons, que não nos persigam diariamente. Não é fácil, tenho consciência disso, mas tudo acontece por uma razão. Disso eu tenho certeza! Não é conformismo, até porque são nossos atos que remetem a isso. Mas fazer o bem, para si e para os outros, melhorar constantemente, enfim, buscar a razão de existir, e aprender com isso, são situações que deveriam acompanhar a vida de todos.
Dessa forma, qualquer ato que traia esse ideal, que macule nossa consciência, que não implique serenidade, acarretará uma tortura natural e constante, em nossos pensamentos e em nosso cotidiano, impondo a escravização do nosso espírito. E, lembre-se: ele só pode ser aprisionado por uma única pessoa... por você mesmo, independente do corpo que habite!

sábado, 8 de outubro de 2011

SEGREDOS DO CORAÇÃO

Quando a gente ama muito alguém, não enxerga a situação por inteiro, não observa todos os detalhes, aquelas perspectivas ocultas de uma relação que parece ser única, para toda uma vida! Fazemos planos, inventamos um olhar, que apenas nós entendemos, escolhemos nomes, acreditamos em nossos sonhos, como se eles estivessem ali, bem ao alcance das mãos. E tudo parece inacreditavelmente perfeito, pronto para acontecer. Mas, às vezes, não acontece!
Podemos dizer que nesse momento surge uma pergunta que parece não querer sair da cabeça: Por quê? Porque algo que era tão lindo, forte, e, praticamente, certo, apenas acaba, e não diz aonde foi! A resposta é simples: ainda não estávamos preparados. Por isso, a vida se encarrega de separar o que já teve o seu tempo, sem dar explicação nem nada. Apenas isso, um pra cá e o outro pra lá. Parece o fim de uma brincadeira infantil, em que o melhor de tudo era sorrir ao lado dele (ou dela). Era como encontrar o seu amor escondido em algum canto de si mesmo, e emprestar-lhe uma força que até você desconhecia que tinha. E terminar dizendo: te encontrei! É emprestar os seus brinquedos (amigos, família, lembranças) sem sentir-se egoísta, porque você quer tanto que aquela pessoa esteja ao seu lado, que lhe conheça por inteiro. E tanto faz se quebrar, ou deixar pra devolver outro dia, contanto que esteja sempre por perto para brincar.
Tomar a decisão de pôr um ponto final numa relação com alguém que você ainda ama, posso afirmar, está no topo da minha lista das piores coisas da vida. Só perde para um grave problema de saúde. E digo isso porque a dor que fica é algo inexplicável, é um vazio que surge como o silêncio, que insiste em te incomodar sem dizer nada. Você liga a televisão, pega o telefone, procura um amigo, você resolve colocar em dia aquela leitura atrasada. Desiste! Não há o que possa te ajudar na hora em que aquela tristeza aparece, de repente, sem pedir licença, sem te explicar nada.
E aí só resta deixar o tempo passar, acreditar que tudo que aconteceu tem um motivo, que não era pra ser, que a vida sabe o que faz, que vocês não foram feitos um para o outro; desculpas você encontra, o difícil é acreditar nelas, por mais que se comece a perceber as pequenas diferenças que incomodavam tanto ontem, hoje você até sente falta delas.
O difícil é perceber que o amor não basta. E o engraçado é isso, justamente o que se considera mais importante, não é o que garante o sucesso de uma relação. Como eu gostaria de dizer que existe uma fórmula secreta para isso, os meus problemas estariam resolvidos. Os seus também! Mas não há. Conforme-se!!! O fato é que cada um tem a sua receita. E com base nela é que vamos acrescentando os ingredientes para dar mais sabor à vida, elementos tão particulares e, por vezes, complexos, que somente o destino poderá explicar o que há por trás desse mistério.
E se existe um plano para esses encontros e desencontros, tenha sempre em mente o seguinte: respeite quem você ama, acima de tudo, e tenha a paciência necessária para que a vida se encarregue de te ensinar o que é preciso! Aproveite cada minuto ao lado de quem você ama, para que não haja arrependimentos e lamentações.
A você, que me ensinou tanto, e que sempre me fez tão bem, saiba que sou uma pessoa melhor e mais feliz por ter tido a oportunidade de brincar ao teu lado. Obrigado!

PS. E um Feliz Dia das Crianças para todos nós, para que nunca deixemos de acreditar em nossos sonhos...

domingo, 2 de outubro de 2011

O PASTEL

Tinha saído cedo de casa e, apressada, não havia tomado o café, porque o médico tinho lhe pedido para ser uma das primeiras a chegar, que talvez conseguisse encaixá-la em algum horário. De fato, foi atendida, mas apenas no final daquela manhã, em que tudo conspirava para testar sua paciência. Ligou para o chefe e explicou o atraso, e afirmou que estava saindo do consultório e, dali a meia-hora, estaria chegando ao trabalho. Atrasada, decidiu comer qualquer coisa pelo caminho, algo rápido e que pudesse aliviar a fome, que começava a incomodar o estômago. Também pudera, a última refeição havia sido aquele sanduíche no final do dia anterior.
No caminho para o escritório, pensou na pastelaria da esquina, que servia um pastel de carne com azeitonas que era uma maravilha. E um refrigerante bem gelado! De imediato, sentiu a água acumular em sua boca. Podia também passar na loja de empadas ao lado, e comprar aquela de camarão, que fazia um sucesso nos arredores.
Pastéis, sanduíches, empadas, refrigerantes... quanta porcaria estava ingerindo ultimamente, e pensou em sua genética que lhe favorecia, porque qualquer uma, com a vida sedentária que levava, e considerando o que andava comendo, estaria enorme de gorda. Ela não, apesar de não ser tão alta, era muito elegante, magra, e agora, com aquele novo corte de cabelo, andava sentindo-se bonita e um pouco mais empolgada. Um pouco só, pensou, e lembrou-se como andava desanimada de uns tempos para cá. Nada que umas férias não melhorassem o ânimo, aquela energia que sempre teve, mas que havia desaparecido nos últimos meses de trabalho.
Estava há duas quadras da pastelaria quando recebeu um panfleto de um homem, bem apessoado e sorridente, que lhe falou de um produto que prometia milagres. Olhou para aquele pedaço de papel, e já ia jogá-lo no chão, quando decidiu dar uma olhada rápida, parecendo interessada, talvez para agradar aquele senhor que distribuía aquela propaganda de uma forma tão simpática e gentil. E uma frase escrita no papel a fez parar: "Aumente sua disposição e vigor pela vida com uma alimentação mais saudável!".
Sem que precisasse falar qualquer coisa, aquele homem começou a falar sem parar sobre o produto que prometia, além de mais energia, um meio de alimentação completo e rápido, e que a ajudaria, inclusive, a emagrecer ou a engordar um pouco mais, dependendo do que ela pretendesse.
Ele continuou explicando como funcionava, e apontou a porta de um prédio, numa rua próxima e completamente deserta. Lá, disse ele, eram servidos sucos, chás e shakes à base de um produto que ela já ouvira falar, e que, segundo ele, possuía tudo o que era necessário para saciá-la de uma forma sadia e correta, substituindo uma refeição. Perguntou se ela queria lhe acompanhar, que seria rápido, e uma experiência que ela não se arrependeria. E ela o seguiu, um pouco desconfiada, e pensando: "o que estou fazendo?" Mas continuou caminhando.
Quando o homem abriu a porta, e ela entrou, ouvindo, de imediato, às suas costas, a porta fechando, foi o momento em que se sentiu arrependida. A sala era pequena, com algumas prateleiras, e uns potes que faziam referência ao produto anunciado. Não era muito iluminada, e ele pediu que a acompanhasse através de outra porta mais ao fundo. Ela já não sabia mais se deveria ir, porque talvez passar daquela porta significasse não ter mais como pedir socorro, uma vez que ninguém sabia onde ela estava. E se ele fosse um louco, e se quisesse machucá-la, e se tudo não passasse de uma fachada para roubar os seus órgãos, como havia lido em um email tempos atrás. Mas ficou constrangida pelos seus pensamentos, e o homem, percebendo sua insegurança, disse que lá atrás, sua mulher era quem preparava os produtos.
Ela ficou mais tranquila, porque ouviu vozes, e decidiu acompanhá-lo mais um pouco.
Ao chegar lá, a porta novamente fechou-se atrás dela, e pode observar umas três pessoas sentadas, um tanto quanto caladas, tomando líquidos em copos e chícaras. O cheiro do local lembrava a casa da avó, talvez pela umidade e o frescor dos chás que emanavam no ambiente.
Ela sentou-se, e uma mulher que se apresentou como "a esposa" perguntou o seu nome, e, depois de uma rápida conversa, pediu que ela aguardasse, e seguiu para uma área da sala separada por uma cortina, que percebeu ser a cozinha do local.
Minutos depois, ela estava tomando um chá amargo, e sentiu que todos a olhavam. E o homem não saía do seu lado. O medo novamente se apossou dela. Por que ele não parava de encará-la. E se aquelas pessoas estivessem ali participando de tudo com o casal? E se ela fosse a vítima perfeita? E se tivessem colocado algo em seu chá para que ela desmaiasse? Eram tantos "e se" que ela tomou o chá tão rápido que queimou a língua. Decidiu ir embora, mas a mulher já vinha com um copo cheio de um líquido branco, o que fez com que ela voltasse a sentar. O gosto também não era bom.
E o desespero só aumentava. Ela começou a sentir um calor no corpo, aquilo não estava certo, e uma espécie de pavor tomou conta dela, e sem pensar em nada largou o copo e levantou-se muito rápido. Sentiu tudo girar, um calafrio no corpo inteiro, pensamentos de horror, e tudo ficou escuro.
Acordou num quarto pouco iluminado, sozinha e desnorteada, e lembrou-se de tudo que havia acontecido. Quanto tempo teria ficado desacordada? O que estava acontecendo? Seus medos começavam a fazer sentido.
Procurou pela bolsa e visualizou-a sobre uma cadeira. Imediatamente, levantou-se e apanhou-a com rapidez, procurando o aparelho celular. Precisava avisar alguém, dizer onde estava, se é que ainda estava no mesmo lugar de antes. O celular havia sumido.
- Claro, como sou burra, estava tudo armado. O que vou fazer agora?
Nesse exato momento, alguém aproximou-se da porta do quarto. Ao abri-la, aquela mulher que havia lhe servido o chá apareceu, sorridente, perguntando se ela estava bem.
- O que aconteceu? Onde estou? - falou, afobada.
- Você desmaiou. Acho que estava muito tempo sem comer, pelo que havia me dito. E ficou fraca. - E o meu celular?
- Pois é, quando estávamos te trazendo para cá, ele tocou e tomei a liberdade de atender, e era seu namorado, mostrando preocupação.
- Eu preciso ligar para ele. Onde está o celular, por favor! - falou apressada.
E da porta, uma voz masculina anunciou:
- Não precisa, amor, estou aqui.
Uma sensação de alívio invadiu todo o seu corpo, e ela o abraçou energicamente.
A mulher acompanhou o casal até a porta de saída, e o namorado indagou:
- Que loucura foi essa? O que te deu pra vir aqui?
- Vou te contar tudo... mas primeiro, por favor, vamos até a esquina. Preciso comer um pastel!

sexta-feira, 8 de abril de 2011

ELLA

Há anos meus amigos enchem o saco para que eu procure a porra de um terapeuta. Desde que minha mulher morreu num acidente de carro, pra ser mais específico. Dizem que sou muito impaciente com o sexo oposto. E tímido. Ridículo! O que sou é seletivo, por isso nunca encontrei uma mulher até agora que valesse a pena. É verdade que sempre achei essa história de terapia coisa de maluco, ou talvez seja pura e simples ignorância minha, mas como dizem por aí, se de gênio e louco todo mundo tem um pouco, resolvi experimentar. Na realidade, nunca procurei ajuda porque não via problema algum em tachar a maioria das mulheres como vagabundas. Quase todas que conheci são mesmo. À exceção das minhas falecidas mãe e esposa, é claro! Umas santas! Que Deus as tenha.
O fato é que me rendi às constantes pressões e, no auge dos meus 45 anos, finalmente comecei a fazer análise. Aliás, acabo de chegar do consultório da Dra. Ella Ribeiro, psicóloga, 35 anos, amiga de uma amiga, a Elvira. Essa sim, a pior de todas! Nunca teve um namorado. Jamais teve um, porque eram sempre dois ou três ao mesmo tempo. E, para o meu azar, resolveu não dar justo pra mim, dizendo que eu era muito especial, que não queria estragar nossa amizade. Viu, como eu disse, va-ga-bun-da!
Logo que cheguei, fiquei aguardando na recepção do consultório, lendo uma revista, dessas de fofoca do mundo artístico. Mais uma vez fiquei convencido de que o mundo só tem mulher que não presta. A Fulana que se separou do Ciclano e está namorando o melhor amigo dele, que já foi visto circulando num restaurante famoso com uma menina 30 anos mais jovem. Putaria total esse mundo da televisão.
A porta abriu e surgiu uma mulher de óculos, alta, pele clara e corpo de modelo. Um espetáculo! Olhos azuis, eu acho. Um cóqui alinhando perfeitamente aqueles cabelos loiros que deixavam à mostra um pescoço fino, realçado por dois brincos de argola dourada. O sorriso acompanhado das palavras “Muito prazer, entre!!!” fez com que a revista escapasse das minhas mãos e caísse no chão. E pensei: “Que idiota eu sou”.
- O prazer é meu – respondi meio sem jeito.
Sentamos, cada qual em sua poltrona, e ela começou perguntando algumas coisas que respondi sem pensar. Nome, idade, estado civil, essas besteiras. Não conseguia tirar os olhos dos pés dela. Sou viciado em pés, e os dela eram perfeitos. Mas acho que ela notou meu fetiche, porque interrompeu o questionário no meio, cruzou as pernas, e perguntou:
- Sr. Rafael, o que o traz aqui?
- Hããã... – resmunguei, desconcertado.
- Gostaria de saber o motivo do senhor ter me procurado.
- Ah, sim. Bem, eu nem sei direito. Muitos amigos insistiram, disseram que seria bom. Enfim, estou aqui, eu acho, porque eles acham que eu preciso.
- Mas por que eles acham isso?
- Eles dizem que tenho dificuldade de me relacionar com as mulheres depois que fiquei viúvo. Digamos assim, que não consigo me aproximar delas. Pura bobagem.
- Entendi. O senhor é tímido?
- Não, seletivo – retruquei rapidamente.
- Pois bem. Há quanto tempo o senhor ficou viúvo? E o silêncio irrompeu o ambiente durante uns 30 segundos.
- Doutora, eu posso pedir dois favores? Meu nome é Rafael. Não precisa me chamar de senhor. E gostaria de deixar minha falecida mulher fora dessa conversa. Posso lhe garantir que ela não tem nada a ver com nenhum problema meu. Está tudo superado.
- E por que o Sr...., desculpa, por que você acha isso?
- Bem, digamos que antes dela morrer já tínhamos decidido nos separar. Na verdade, ela decidiu por nós. Dizia que éramos muito diferentes, que não deveríamos ter casado, e que o divórcio era inevitável. Eu não entendi nada, mas aceitei. Uma semana depois que ela saiu de casa, numa madrugada, recebi uma ligação comunicando o acidente. Fiquei muito triste, mas, fazer o quê? Ela já tinha tomado a decisão de não me ver mais. Eu sofri muito, mas não tinha mais nada a ver com ela.
Os minutos passaram, e a cada palavra Ella parecia ficar mais interessada na história, enternecida, e quanto mais eu dizia que não queria falar no casamento, mais ela utilizava subterfúgios para me fazer tocar no assunto. E sorria. Um sorriso meigo e cativante. Mexeu no cabelo, e o cóqui se desfez sem querer, caindo sobre os ombros, e ela ficou mais sexy do que nunca. Eu nem ligava em estar falando sobre o período em que fui casado, estava encantado com aqueles olhos, com aquele sorriso que me provocava. Lá pelas tantas eu pedi um copo de água, só para ver ela de pé. Foi quando tive a certeza de que estava definitivamente apaixonado. Ela levantou – parecia que estava se movendo em câmera lenta –, largou o bloco em que fazia as anotações por sobre a poltrona, e ao andar até a mesa onde estava a jarra de água, pude perceber que a cintura era minúscula, contrastando com aquela bunda maiúscula. Todo o meu corpo enrijeceu. Todo! E sentia um calor infernal a cada vez que ela cruzava as pernas.
Durante a sessão, diversas vezes fiquei extasiado enquanto ela falava, vendo aqueles lábios emoldurando o seu sorriso perfeito. Não uma, mas várias vezes me pegava olhando para ela e imaginava situações em que estávamos juntos, em que éramos um casal. Um casal muito feliz! No final da consulta, agradeci, disse que tinha sido um prazer conhecê-la, e insisti que pretendia fazer umas duas ou três sessões por semana, não obstante a argumentação dela de que não eram necessários tantos encontros.
Na saída, fiquei aguardando o táxi na recepção do prédio, e notei um jovem impaciente ao telefone, falando com a namorada.
- Hoje eu não posso, amor, eu já disse. Tenho fute na facul. E amanhã estou indo pra praia com a galera. A gente vai surfar todo o final de semana... Tá bom, te ligo à noite... Também te amo, gata! E desligou. Olhou para mim, e sorriu. Um rapaz bonito, não fossem as espinhas no rosto, marcas recentes da puberdade. Um sinal sonoro indicava a chegada do elevador. As portas abriram-se, e com passos firmes naquela saia justa a linda Dra. Ella vem na minha direção, sorrindo, o mesmo sorriso de minutos atrás. Passou por mim como se eu fosse invisível, e deu um beijo na boca daquela criança ao meu lado.
Não tenho dúvidas: são todas vagabundas!!!!

segunda-feira, 21 de março de 2011

ENCERRANDO CICLOS

Meus amigos, li recentemente um texto publicado em um blog, de autoria desconhecida. Notei também que já havia sido reproduzido em vários outros blogs. Como se encaixa perfeitamente ao momento que estou passando, e como faz meses que não escrevo nada, achei que nada melhor do que um incentivo para voltar a fazê-lo. Acontece que, como é de autoria desconhecida, permito-me fazer algumas alterações para ficar mais com a minha cara. Mas já adianto que a ideia essencial não é minha, apenas me ajudou a aceitar o que não posso mudar. Pode ser útil pra você também!

Quer saber! Sempre é preciso descobrir quando uma etapa chega ao final. E mais. Aceitar que isso aconteceu. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas. E, podem ter certeza, precisamos vivê-las.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram, independente de você querer ou não que tivessem continuado. O que, de fato, me parece essencial é ter forças para fazer um novo presente. E encontrar um novo futuro.
Entenda: Foi despedida do trabalho? Terminou uma relação na qual você tinha certeza que era o amor da sua vida? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão cuidadosamente cultivada desapareceu sem explicações? Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu; pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.
O importante é ter a perfeita noção desta perspectiva: ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. O que passou não voltará mais: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar. As coisas passam, e o melhor a fazer é deixar que elas realmente possam ir embora. É doloroso, eu sei, mas tem que ser feito. Uma hora para de doer, e você se sentirá muito melhor. Por isso é tão importante destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem. Não será fácil, mas será melhor pra você mesmo.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração… e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar. Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que desvendem seu gênio, que entendam seu imenso amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais. Pare de sentir pena de si próprio. Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do “momento ideal”. Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará! Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa – nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida, mesmo que você se sinta magoado ou triste pelo fim. A decisão já foi tomada. As coisas já estão diferentes. Quer você queira, quer não. Assim, feche a porta, mude o disco, limpe a casa. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Verá que a alegria estará lá, de um jeito novo... do seu jeito.
Enfim, sacuda a poeira, esqueça quem você era, e passe a ser quem é agora.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"MEA CULPA"

Falar de política não é tarefa muito fácil. Isso acontece porque, além dos radicais, temos que conviver com aqueles que, mesmo não sendo extremistas, simplesmente não aceitam que o voto é individual, e implica simpatia, seja ela à pessoa, partido ou ideologia. Mas vamos lá!
Tenho muito respeito pela democracia. Sendo mais preciso, pelo processo democrático! Qualquer pessoa que esteja no pleno exercício de seus direitos políticos, e que preencha os requisitos previstos pela Carta Maior de nossa Nação, pode se apresentar perante os milhões de brasileiros, e candidatar-se para representar os cidadãos, tomar decisões por eles, em prol do chamado bem da coletividade. E qualquer um, com um mínimo de capacidade de gestão, pode e tem o direito – desculpem-me a repetição proposital – de lutar por esse direito.
Até aí tudo bem! O problema começa quando temos que conviver com a possibilidade de que alguns dos eleitos, salvo equívoco pessoal, não possuem a menor capacidade de gestão da coisa pública. E a coisa fica mais grave, na medida em que acabamos preferindo a vitória de um Tiririca em detrimento de uma Mulher Pêra, a qual mostrou sua indignação ao não ver apurado nenhum voto a seu favor, quando acreditava realmente que seria eleita. Convenhamos, no final das contas, sorte a nossa! E não estranharia se no meio do discurso do nosso Deputado Federal mais votado, fosse usada a expressão a que sempre se referiu aos seus ouvintes: “Abestados!”. Pois é assim que me sinto, um perfeito e legítimo abestado. Tenho que rir da minha própria desgraça.
Em contrapartida, a eleição para a Presidência da República mostra-se, no mínimo, instigante. Se de um lado o já ganhou da candidata à sucessão do Presidente Lula, Dilma Roussef, deu lugar à expectativa de um segundo turno, diante da vitória moral da candidata representante do Partido Verde, do outro se pode observar que o povo brasileiro está no caminho, mas ainda não se mostra cônscio de sua condição de cidadão, de valorizar essa pátria tão grande e não mais tão desimportante, como outrora já disse Cazuza.
Acreditar em um futuro melhor para o nosso país não pode ser encarado como um sonho. Antes de mais nada, tem que ser um objetivo. Dessa forma, eleger representantes que orientem diretrizes para o nosso bem estar e nos proporcionem melhores condições de vida não é apenas um direito político. É mais do que isso! Hoje, considero-a uma obrigação. E o erro é nosso quando pensamos que os culpados são eles. Depois de eleitos, quem tem que fazer alguma coisa no dia a dia somos nós, de modo a participar ativamente da cidadania, respeitar os direitos individuais e observar com atenção o que está sendo feito, porque não quero ver meus filhos reclamando que nasceram em um país onde nunca fiz nada para mudar. O caminho é longo, mas é nosso: meu e teu! Por isso, aqui faço um “mea culpa”. Vou procurar agir mais e reclamar menos. Tente fazer o mesmo.
E nesse ritmo, Brasil, quero ver a tua cara, na esperança de que um dia não exista mais quem pague pra gente ficar assim, tão desinformado, desnorteado e inconformado com a falta de direção, seja ela qual for. E talvez, quem sabe, não tenha que rir da minha própria desgraça!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O JOGADOR


- Que desgraça, quantas vezes preciso dizer pra não me ligar no meio do jogo! – berrou Zizo com a mulher.
Os amigos nem se espantavam mais, apesar de um ou outro fazer uma cara de desgosto pelo modo como ele falava com a esposa ao telefone quando estava à mesa de poker. Dizia ele que trazia sorte, esse desagrado e irritação que provocava nela era tudo que precisava para começar a ganhar. E, coincidência ou não, tudo parecia conspirar para isso, porque era só ela desligar, furiosa com ele, que a sorte parecia surgir como num passe de mágica.
Infelizmente, Rita não sabia dessa superstição do marido, e talvez não o tivesse abandonado aquela noite.
Zizo chegou tarde, com muito dinheiro na carteira, mas com a cabeça dando voltas em razão do excesso de bebida alcoólica que havia consumido. Assim, só foi perceber a ausência de Rita quando levantou e foi tomar o café da manhã. A mesa não estava posta, e a mulher já tinha saído para o trabalho. Isso nunca havia acontecido.
Achou estranho, porém resolveu deixar as coisas esfriarem, pois sabia que ela ficava furiosa, mas depois sempre lhe dava mais uma chance. E ele nunca mencionava a tal superstição. Achava melhor assim. Com o dinheiro do jogo comprava algumas flores, e tudo ficava bem.
À noite, ela não voltou para casa, e percebeu que o armário dela estava entreaberto. Abriu-o e quase caiu para trás quando não viu nenhuma roupa guardada. Pensou em roubo, sequestro, mas logo se deu conta do que estava acontecendo. Ela havia partido.
Nos primeiros dias, tentou entrar em contato através do celular, sempre desligado. Tentou a casa da mãe dela, com quem ele não falava desde o primeiro ano de casamento. Os dois nunca se deram muito bem, por isso, logo que se identificou dizendo que estava desesperado atrás de Rita, a sogra desligou o telefone, não sem antes alertar:
- Finalmente ela recobrou um pouco de consciência, seu inútil! E não ouse aparecer aqui para procurá-la. Eu juro que chamarei a polícia!
Ele não se preocupou com o aviso, e foi correndo para o prédio da sogra. Só não imaginava que a ameaça seria concretizada. Teve de sair do edifício escoltado por dois policiais.
Algumas tentativas frustradas no trabalho dela, e decidiu que o destino se encarregaria de ajeitar as coisas.
Após duas semanas, resolveu retomar a vida, os amigos, o jogo das terças-feiras à noite. Se ela não o queria, outras apareceriam. Uma fila de mulheres desejavam um homem como ele: simpático, fiel, trabalhador e bom de cama (ele adorava dizer isso para si próprio, tentando se convencer que ela não conseguiria um amante melhor).
E na terça-feira seguinte, lá estava ele de novo, chegando à casa de um dos amigos com uma garrafa embaixo do braço, e com a expectativa de por em prática a sua técnica, e testar de novo a sua sorte. Para ninguém perceber nada, pediu para um sobrinho ligar por volta das dez horas da noite. Na hora combinada, o telefone tocou, e ele começou a gritar impropérios, como se estivesse falando com a esposa. O silêncio foi sepulcral quando, exatamente três minutos depois de desligar o celular, perdeu todas as fichas numa única aposta. Isso nunca havia acontecido. Nem ele acreditava na sua falta de sorte.
Essa situação se repetiu na semana seguinte, e na outra, até que pediu para o sobrinho não ligar mais, circunstância que não alterou em nada as derrotas contínuas. Depois de um mês, decidiu parar de beber, pois toda vez que chegava em casa, sem dinheiro e frustrado, percebia a ausência de Rita, e, fragilizado pelo álcool, notava que a existência dela em sua vida era mais importante do que podia imaginar. E chorava como criança.
Passados cinco meses, quando saía do supermercado, naquela terça-feira, antes de ir para a jogatina habitual, encontrou Rita. Ela parecia mais bonita do que nunca, e sua vontade era correr em sua direção, pedir desculpas, implorar para que voltasse, mas era orgulhoso demais para isso. Ela o olhou com tristeza, e passou por ele sem mencionar uma palavra. Zizo ficou com os olhos marejados, e, num ato-reflexo, gritou seu nome.
Rita parou, olhou por sobre o ombro, e continuou andando.
E ele, engolindo o orgulho, falou em voz alta:
- A culpa é minha, e sei que te devo explicações!
Ela parou, e Zizo foi ao seu encontro, acompanhando-a até o carro. Ajudou-a com as compras e foram tomar um café. Ele pediu desculpas, implorou que ela voltasse para casa, que sentia muito a sua falta, e explicou a razão de sua grosseria nas noites do poker. Ela não conseguia acreditar naquela besteira de azar no amor e sorte no jogo, a qual ele insistia em dizer que funcionava. De qualquer forma, apesar de relutante, aceitou as condições impostas por ela e prometeu nunca mais discutir ao telefone, principalmente nas noites de terça-feira.
Naquela noite, pela primeira vez, em anos, ele faltou ao jogo, porque decidiu que era mais importante recuperar o que acreditava ter de mais valioso. E, nas semanas seguintes, sempre que fazia suas apostas, tinha a sensação de que a sorte não lhe sorriria mais como antes. Não ligava, pois, mesmo perdendo, era o homem mais sortudo do mundo ao ver Rita sorrindo quando chegava em casa.

Final alternativo:
Ela parou, e Zizo foi ao seu encontro, acompanhando-a até o carro. Ajudou-a com as compras e foram tomar um café. Ele pediu desculpas, implorou que ela voltasse para casa, que sentia muito a sua falta, e explicou a razão de sua grosseria nas noites do poker. Ela não conseguia acreditar naquela besteira de azar no amor e sorte no jogo, a qual ele insistia em dizer que funcionava. De qualquer forma, apesar de relutante, aceitou as condições impostas por ela e prometeu nunca mais discutir ao telefone, principalmente nas noites de terça-feira.
Do supermercado foram direto para casa, transaram como há muito não faziam, e ele disse que precisava ir, porque tinha confirmado presença e era homem de palavra. Ela não acreditou que depois de tudo que tinha acontecido, ele a deixaria em casa àquela noite e iria jogar poker com os amigos. Discutiram, ela gritou com ele, disse que nunca mais queria vê-lo e, chorando muito, foi embora. Horas depois ele voltou para casa, completamente bêbado e desnorteado, mas com os bolsos cheios de dinheiro.
(qualquer semelhança com pessoas ou circunstâncias reais constitui mera coincidencia)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A MORTE QUE SE VIRE SOZINHA!



Depois de quase três meses de abstinência literária, e de uma recente reflexão para modificar minha atitude em relação aos meus reais desejos de satisfação pessoal, decidi voltar a escrever. Além disso, vários amigos vêm me cobrando textos novos, e isso também ajudou para que saísse da inércia. Diferente do que possa parecer, não havia desistido, só andava sem muita inspiração... ou preguiça mesmo! O fato é que volto ao hábito de dividir com vocês meus pensamentos (ideias e ideais), enfim, a razão de existir deste blog.

Pois bem, o assunto de hoje tem relação com a intenção de melhorar minha qualidade de vida. Sendo mais preciso, decidi largar o cigarro! Finalmente criei vergonha na cara, e resolvi parar de comprar o meu câncer.

É provável que várias das pessoas que me conheçam, quando lerem essa crônica, fiquem espantadas, pois talvez nem saibam que eu, durante quase dezessete anos, fumei! Pois é, na fase adulta, trinta e poucos dias sem, e quase duas décadas com. Nos bares, em festas, no carro, em casa, nas viagens, qualquer lugar e motivo eram suficientes para puxar uma carteira e saciar esse desejo inexplicável. Por vezes, incontrolável. Quem fuma sabe do que estou falando. Conseguimos segurar a vontade por algum tempo, mas quando é protelada por horas, e sentimos a boca salivar, só o que se pensa é na necessidade de uma tragada para aliviar aquela sensação de falta, de algo que até agora não sei o que é. Digamos apenas que se trata de um vazio indefinido.

Confesso que seguidamente me envergonhava do vício. A roupa fedia, o hálito não era nada agradável, o paladar ficava evidentemente alterado, e a resistência física nem se fala, cada vez pior. Tantos contras que eu mesmo não acreditava que aquele pedacinho de papel enrolado com tanta porcaria conseguisse me dominar de um jeito sensivelmente irracional.

Outra coisa de que me envergonhava era o fato de ter começado a fumar numa idade em que já deveria ter alguma consciência do prejuízo futuro. Só que acender um cigarro parecia certo, a melhor coisa no mundo, um prazer momentâneo inconsequente, uma sensação de liberdade incondicional.

Em geral, associava a algum tipo de prazer, uma espécie de complemento às extasiantes noites divertidas, à pacificidade de um momento íntimo, um divisor de águas entre a tranquilidade e a excitação. Em contrapartida, havia os períodos solitários. Nesses, eu o considerava um passatempo. Na verdade, era mais do que isso! O cigarro era um companheiro invisível, porque a solidão com ele era bem mais fácil de ser assimilada. Um estado de espírito aceitável, a parceria silenciosa à espera de um amigo atrasado; um conforto bem-vindo nas horas que não passavam no aeroporto; um alívio causado por uma angústia. Uma forma de amortecer a dor.

Sempre que pensava em parar de fumar, acabava aumentando o consumo. Muitas das vezes era simples compulsão, como se tentasse retaliar minha decisão, uma espécie de compensação ao fato de saber que um dos meus melhores prazeres estava com os dias contados. Em outras, pura ansiedade mesmo pela chegada do dia fatal. Sei que impor um dead line é fundamental, mas quem disse que eu conseguia. Foram inúmeras vezes que cheguei muito perto. Muito perto mesmo!

Bem, depois de acender e tragar uma centena de cigarros na minha vida, e de passar pela experiência de várias tentativas frustradas para acabar com esse vício que me satisfazia de uma forma que sempre achei duvidosa – uma dessas tentativas quase foi bem sucedida (repito: quase), já que durou uns dez meses – decidi que era hora de me reinventar em definitivo, e resolvi viver de um jeito diferente, sem um desses prazeres que causa tanto desprazer ao longo do tempo, consciência que só fui adquirir recentemente.

E nessa nova fase estou me sentindo muito melhor, de consciência limpa por estar me cuidando de forma correta, menos culpado em relação às minhas escolhas, e muito mais vivo, por assim dizer. Se minha vida agora fosse um poema, poderia dizer que o gosto não sente mais vergonha do beijo, o corpo lembra agora uma poesia em silêncio, feita só de cheiro, e o futuro está vindo aos poucos, por conta própria, sem ninguém que o impeça de ocupar seu espaço.

Então é isso, estou novamente me impondo regras, estabelecendo uma nova postura diante das minhas atitudes, à espera ansiosa do sucesso da minha decisão. Tenho certeza de que dessa vez vou conseguir, e sabem por quê? Porque agora tenho uma excepcional razão para seguir adiante, um motivo que intensifica minhas emoções e faz eu querer mais, criando em mim expectativas de ir mais longe, o máximo que der. Cada um deve achar a sua, eu encontrei a minha.

Enfim, larguei o cigarro, e querem saber, estou acreditando muito mais em mim desta vez. Mas posso afirmar para quem estiver lendo essa crônica que não é nada simples, porque a vontade ainda tenho, apenas que agora exerço um controle maior sobre ela. É complicado, mas vamos lá!

E diante de tudo que estou passando, cheguei a uma conclusão em relação às experiências que tive: largar o cigarro é fácil! Difícil mesmo é parar de fumar.


segunda-feira, 26 de abril de 2010

PARA SEMPRE: ELE E ELA

No alto daquele edifício, apenas observava as luzes da cidade. À sua volta havia pessoas, a maioria delas desconhecida. Foi quando a viu chegando, incrivelmente linda. Ela nem o notou. Mas ele percebeu, num único instante, o que o coração por vezes demora uma vida inteira pra dizer. Foram apresentados. Era pra ser! Ela achou que o conhecia. Ele, que acreditava em vidas passadas, já sabia. Conversaram. E, logo em seguida, se afastaram...
Falou com outra. Ela notou! De repente, voltou. E a noite assim transcorreu até a hora em que trocaram mais que olhares, todos os sentidos aflorados pelo toque das mãos. Pegou-a pelo braço. Ela deixou-se levar. E, sentindo o frio da noite, encostaram seus lábios e aqueceram-se, enternecidos...
Mas essa história não podia ficar assim, sem um fim. Encontraram–se dias depois. E mais outro. Viajaram juntos e trocaram juras de amor; só queriam estar perto todo o tempo do mundo, sem entender por quê. Mas seria preciso saber? “A gente simplesmente quer!” – diziam eles, e isso bastava para os dois. E pensavam: “Ah, seja o que Deus quiser, seja o que for!!!”.
Estranhos que antes nunca se encontraram, mas que sentiam se conhecer a vida toda. Amantes que dividiam seus sonhos, e falavam do céu e do mar, do sol e da luz refletida pelo luar. Foram passando o tempo juntos, uma expectativa por saber o que aconteceria depois. E não sabiam o significado do que todos chamavam de felizes para sempre, mas decidiram que iriam descobrir. E assim, desse jeito curioso, transformaram o que sentiam um pelo outro na primeira e mais linda história sem fim...

segunda-feira, 12 de abril de 2010

GATO PRETO


Ainda lembro o dia em que conheci meu amigo de infância e vizinho de praia. Gerônimo era daquelas crianças tímidas, sem amigos, um gordinho sem graça. Minha mãe insistiu para que os novos vizinhos viessem jantar com a gente. Achei um saco! Por conta disso, tive que sair mais cedo do jogo de futebol de rua, a maior curtição naquela época. Aquele cara, além do nome engraçado, tinha uma cara de nerd, um perfeito abobado que usava umas roupas estranhas. Durante o jantar ele mal levantava o rosto, e apenas emitia grunhidos num sentido afirmativo quando minha mãe perguntava se queria comer mais massa. Acho que deve ter esvaziado uns quatro pratos. “Chega, filho!”, dizia o pai dele, parecendo constrangido.
A cada verão que chegava, era obrigado a suportar a sua companhia lá em casa, uma vez que meus pais e os dele se tornaram grandes amigos. Ainda bem que moravam no interior, e só nos víamos na praia, senão teria que aguentar isso durante todo o ano. Não apenas os jantares a que me obrigavam a participar, mas a insistência dos meus pais para que eu me aproximasse dele me incomodavam muito.
Com o passar do tempo, fui me acostumando àquela inconveniente presença, e o ignorava, até o dia em que, numa daquelas festas organizadas para adolescentes, uns garotos bem mais velhos do que eu resolveram aleatoriamente me eleger como saco de pancadas. Foi voltando pra casa, sempre mantendo uma boa distância daquele garoto encorpado, a quem me impuseram ser amigo, que ouvi uma voz chamando:
- Imbecil! Tá achando que vai aonde? – gritou comigo um garoto mal encarado, acompanhado de dois amigos, que mais pareciam guarda-costas.
Resolvi não responder e apressei o passo, mas não adiantou. O maior deles veio correndo e, sem que eu percebesse, acertou-me uma voadora. Quando caí, ainda meio tonto e sem ar, e apavorado com o que estava por vir, observei que Gerônimo lutava com eles. Deu um soco num, um chute noutro, e juntando os punhos ao queixo, lançou um olhar cheio de ódio para aquele outro rapaz menor que havia gritado comigo. Ele bem que tentou, mas seu soco foi desviado, e em apenas três movimentos, Gerônimo derrubou-o e, aproximando-se de mim, estendeu uma mão e disse sem olhar nos meus olhos:
- Vem! Corre!
Olhei para trás e os três ainda gemiam no chão. A partir desse dia nos tornamos bons amigos, apesar de ainda achar ele muito estranho. Nunca entendi como podia ser um monstro de tão forte, lutar daquele jeito, e ao mesmo tempo mostrar-se tão submisso aos pais, tão amável com eles.
Vinte anos depois nossa amizade de verão ainda continua, mas não tem mais o convívio de antes, seja pelo trabalho, que me possibilita vir apenas nos finais de semana, seja pela carência da minha esposa. Hoje em dia, inclusive, ela exige ainda mais, de um jeito quase irritante, que eu esteja sempre perto para cuidar dos gêmeos. Eles nasceram em março, e requerem um cuidado literalmente redobrado.
Nessa sexta-feira, quando cheguei na praia, minha mulher reclamava de um gato preto que não saiu do pátio durante toda a semana. Fui até lá, e avistei o felino. Adoro cachorros, mas gatos me irritam. Parecem-me impassíveis aos humanos, como se fôssemos dispensáveis. Não confio nem um pouco neles, ainda mais agora que tenho filhos. Ouvi falar que transmitem toxoplasmose, e eu não correria esse risco. Por isso, fui em sua direção e o espantei. Dez minutos depois, lá estava ele novamente.
- Gato idiota! – gritei, sem a menor paciência.
E corri novamente de encontro a ele. Fugiu. Alguns minutos depois, lá estava o bichano mais uma vez. “Está se achando mais esperto do que eu, é?!”, pensei, com um leve sorriso no rosto, mas indignado. Entrei em casa, fui ao quarto, e voltei. Eu o observava de longe. E, lá fora, já estava escuro.
Ele ficou inerte durante uns cinco minutos, parecia que fitava a lua. Hipnotizado. Aproveitei o seu momento de distração e cheguei sorrateiramente perto dele com um lençol. Consegui apanhá-lo, transformei aquele tecido num saco, dei um nó, e gritei para minha esposa dizendo que já voltava.
Devo ter dirigido por umas dez quadras, e desliguei o motor. Desci do carro com ele nas mãos, desfiz o nó e o bicho saltou de lá num miado agudo, não sem antes cravar aquelas garras em mim.
- Ai, gato filho da puta! – gemi, apertando o braço, na área em que fui atacado.
Voltei para o carro, ainda sentindo dor, mas aliviado com o êxito do meu plano.
Quando cheguei em casa fui ver os gêmeos, dei um beijo em minha mulher, contei o que tinha acontecido, e lhe mostrei o que o gato havia feito. Ela ficou horrorizada, mas pude perceber o alívio em seu rosto. Fiz um curativo em meu braço, desci ao pátio para tomar um vinho, sentar em minha cadeira preferida, e apreciar o resto daquela noite. Já estava na terceira taça, quando ouvi um miado. Era ele de novo, no mesmo lugar em que eu o havia encurralado.
Levantei sem paciência alguma, fui até lá, a passos leves, e agarrei-o por trás, pelo pescoço. Lancei-o com força em direção ao terreno baldio que circundava o meu. Um miado estridente seguido de um barulho seco, e tudo ficou silencioso. Olhei por sobre a cerca, mas a escuridão me impediu de ver o que tinha acontecido. Fui até a garagem e peguei uma lanterna.
Ao iluminar aquele espaço em que o havia atirado, apavorei-me com a cena que vi. Ele tinha caído em cima de umas garrafas quebradas que estavam no chão, e o bicho acabou empalado. Uma das garrafas atravessara aquele corpo mole, e ele ficou estaqueado com as pernas traseiras apontando para baixo, e a cabeça do outro lado, também pendia inerte. Senti ao mesmo tempo nojo e pena, mas não havia mais nada que eu pudesse fazer. Era uma mistura de pelos, carne e sangue esparramada no terreno abandonado. Aquele líquido vermelho escorria por entre os cacos de vidro, escurecendo tudo ao seu redor. E pensei conformado:
- Amanhã eu vejo o que vou fazer. Agora já é tarde.
Sentindo-me arrependido, pedi desculpas inutilmente àquele animalzinho imóvel, e ainda abalado com o que tinha acontecido, fui em direção à porta de casa. De repente, Gerônimo apareceu:
- Oi, cara! Como andam as coisas? – falei, aliviado por encontrar um rosto amigo.
- Tudo bem, mas estou chateado. Não consigo achar meu bichinho de estimação.
E uma pergunta inocente e triste retumbou em mim como aquela voadora que levei anos atrás:
- Você não viu meu gato preto?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

NEM PENSE EM NÃO SER FELIZ!




Sem dúvida alguma, a Praia do Rosa, em Santa Catarina, é um daqueles lugares a que podemos atribuir a existência de uma energia diferenciada. Revitaliza, pacifica, e potencializa a nossa própria energia. Cheguei de lá ontem à noite, com uma sensação de leveza na alma, renovação no espírito, poucas vezes sentida por mim. Mas o corpo, ah, esse está um bagaço. Culpa de quem? Das oito horas de viagem na volta pra casa.

Desculpem, mas estou indignado! Oito horas é demais. Não para uma viagem, mas para o percurso percorrido. Em condições normais, não demoraria mais do que quatro horas. E querem saber a causa da lentidão no trânsito? Obras inacabadas na estrada, principalmente em focos que considero primordiais para resolver o problema, o que poderia ser solucionado com um pouco mais de organização. Por que não juntar esforços para resolver esses problemas específicos antes de se dar continuidade a um projeto de tal importância? Ou eu sou muito burro, ou quem fiscaliza o andamento dessas obras, cuja previsão de encerramento era 2008 (?), é cego ou deve estar tendo sérios problemas nesse processo, e aí eu calo a minha boca.

Bem, mas o que interessa – e é sobre isso que quero falar – é que com todas as dificuldades, a viagem de volta tinha tudo para ser estressante, irritante, massante, todos esses adjetivos que rimam e combinam com aquela sensação de perda de tempo. Curiosamente não foi! Durante o caminho, eu e um amigo (uma espécie de irmão que a vida me deu) fomos cadenciando de forma divertida o tempo considerado perdido, alternado por momentos preciosos de silêncio. E num desses momentos, vendo o tempo simplesmente passar, é que comecei a divagar sobre um assunto.

Comecei a pensar naqueles períodos difíceis desse percurso chamado vida, de tristeza, de angústia, de desespero, péssimos momentos que fogem ao nosso controle, e que por vezes parecem não ter fim. A perda de um amor, a morte de um ente querido, a impotência pra resolver uma situação extrema, como uma doença grave na família, a visão de uma cena violenta e chocante seguida da sensação de repulsa e indignação, uma agressão verbal e gratuita. É, a vida é repleta desses acontecimentos ruins, e não há nada o que se possa fazer.

Acontece que existe algo sobre o qual temos controle absoluto e quase sempre nos esquecemos disso. Estou falando dos outros momentos, e que são a maioria! Daqueles que, de modo consciente, nos permitem sermos senhores de nossos atos, nos fazem agir por simples impulso, ou apenas nos proporcionam observar a vida sem interferência. Em todos eles deveríamos perceber o que isso significa, e chegar à conclusão inevitável: viver é perfeito demais! Na hora em que as pessoas se derem conta disso, cada abraço, beijo, olhar, sorriso ou diálogo terá uma sensação diferente, distinta da simples ideia de que representam apenas os cinco sentidos.

Reflito sobre isso e não consigo descobrir a razão para não valorizarmos tudo a todo o momento, e nos sentirmos sempre felizes. Em paz, no mínimo! A isso eu chamo de viver, incondicionalmente. Aproveitar o que temos à nossa volta deveria ser uma obrigação constante, e não uma opção, sem esquecer de que ainda podemos melhorar a cada dia. Os japoneses têm até uma expressão para isso: kaizen, que significa melhoria contínua, gradual.

Tenho visto pessoas que reclamam demais, exigem ainda mais, de si e dos outros, quando na verdade deveriam estar vivendo com a consciência plena de que o amanhã pode não estar mais lá, do jeito que sempre gostaram e só não percebiam. Com isso, não estou dizendo que devemos nos conformar, ficando na inércia, deixando tudo como está. Em realidade, a mudança é mais do que imprescindível para esse aprimoramento pessoal. Apenas não se pode ficar impassível diante dos detalhes que nos cercam, da beleza que as minúcias representam, da valorização individual das nossas escolhas e, somado a isso, da busca incessante pela concretização dos nossos sonhos.

Eu já decidi! Não vou mais perder meu tempo. Nem pensar em não ser feliz. E com a certeza de que quero voltar assim que for possível para aquele lugar espetacular que me deu tanto prazer, e me fez tão bem. Mas com a esperança de que os percalços para chegar até aquele paraíso estejam resolvidos. Estou ansioso para que chegue 2008!