terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A PRIMEIRA VEZ


– Definitivamente, vou ter que procurar um médico! – pensou em voz alta ao sair do banheiro.

Américo Flores, ou simplesmente Flowers, como era conhecido pelos amigos mais próximos, era um homem que havia dedicado mais de duas décadas de sua vida profissional à advocacia criminalista, tendo concluído sua formação acadêmica ainda muito jovem, por imposição do pai, apesar de imaginar que seria muito mais feliz se tivesse seguido a carreira de jornalista. Sempre foi um homem corajoso, afinal de contas, já havia visto coisas “que até Deus duvida!”, como dizia ele aos amigos nas mesas de bar, às quais frequentava com assiduidade. Aliás, este foi um dos motivos da difícil separação de um casamento com Helena, que durara oito anos, pois ela seguidamente jantava sozinha, reclamação que sempre ouvia quando chegava tarde em casa. E ele, como sempre, inventava desculpas, por vezes culpando o trabalho, ou simplesmente falando a verdade:

- Estava num bar com um cliente! – e essa era uma verdade para ele, já que tinha a ideia de que todos eram clientes em potencial.

- Então esquenta a comida. Está no micro! – retrucava ela, sem prestar atenção à desculpa, e ia dormir.

Nos primeiros meses após a separação, começou a perceber que não sentia a menor falta da esposa, mas admitiu que ela cozinhava muito bem. Era o seu lado irônico e machista tentando compensar a necessidade de comer sanduíches noite após noite, já que não sabia fritar um ovo. Com o passar do tempo resolveu inovar, ficava mais tempo em casa, e até contratou uma cozinheira que deixava a comida pronta no forno de microondas, a única coisa que o fazia lembrar com carinho da ex-mulher. E resolveu que era hora de mudar radicalmente o estilo de vida, e fazer o que sempre gostara, até porque já havia adquirido um patrimônio considerável, além de ter recebido uma herança que lhe proporcionava bons rendimentos. Decidiu fazer jornalismo.

Na faculdade, conhecia pessoas diferentes diariamente, divertia-se com os novos amigos, colegas bem mais jovens do que ele, organizava festas em sua casa, e com o passar dos meses começou a conviver com alunos de outros cursos também. Ticiane era uma dessas novas amigas, uma estudante de medicina, vinte anos mais jovem do que ele, amiga de um amigo, a única mulher que, nos últimos tempos, conseguira impressioná-lo, tanto por sua beleza, como pela afinidade e identidade de ideias, observada nas poucas conversas que tiveram. Só lamentava que ela sempre recusasse seus convites para sair.

E assim, nesse ritmo de vida nova, que incluía faculdade, festas, novas amizades, Américo não sentia mais saudade da antiga profissão, dos amigos de bar, da boemia solitária. Dizia apenas que deveria diminuir o consumo de álcool e parar com o cigarro, mas eram daqueles prazeres tão antigos que já faziam parte do seu dia-a-dia, como se fosse impossível abandoná-los.

Logo no início do segundo ano de faculdade começou a desconfiar de que estava com algum problema de saúde. Observou que ia ao banheiro diversas vezes ao dia, e cada vez que urinava sentia uma ardência muito forte. Naquela noite de março, quando estava no aniversário de um amigo, viu que pela oitava vez estava indo ao banheiro, e novamente sentiu a uretra pegando fogo, foi quando decidiu definitivamente que procuraria um médico.

No dia seguinte, por indicação de um parente, ligou para o Dr. Guilherme Bueno, considerado um dos melhores urologistas de Porto Alegre. O médico disse que estaria viajando para a Europa, e que só seria possível atendê-lo naquele dia, com o que concordou prontamente, já que estava começando a ficar preocupado com as ardências e a dificuldade em urinar. Às quatro horas da tarde, conforme o combinado, Américo já estava sentado na sala de espera do consultório.

Após ser chamado pela recepcionista, entrou por um corredor branco, pouco iluminado, e ouviu vozes numa sala fechada, uma espécie de reunião. O Dr. Guilherme apareceu ao final do longo corredor, e, cumprimentando-o, fechou a porta. Passados alguns minutos, depois de uma conversa rápida, o médico disse:

- Pois então! Parece-me que estas ardências podem estar relacionadas a algum tipo de infecção, e teria que fazer um exame para poder identificar a causa com mais precisão. Se o Sr. tiver tempo, podemos fazer agora mesmo.

- E como seria exatamente esse exame, doutor – num tom intrigado.

- Chama-se toque retal. Aliás, o Sr. já deveria ter feito esse exame há alguns anos; todos os anos, diga-se de passagem. Bem, o exame consiste na coleta de material direto da próstata, e também para sentir como ela está, até porque estou desconfiado de que se trata de uma prostatite. É bem rápido, e não vai levar mais do que alguns minutos!

- Sei, já ouvi falar desse exame. Mas se não tem outro jeito, tudo bem! – quando na verdade pensava exatamente o contrário.

- Então, por favor, tire a roupa, e coloque um daqueles aventais – apontando para um armário localizado no canto da sala.

Enquanto tirava a roupa, tentou brincar com a situação, e perguntou:

- Vai doer, doutor? – e começou a rir de si mesmo.

- Não se preocupe, na primeira vez é só uma sensação desconfortável – respondeu ele, enquanto colocava as luvas de borracha.

- Na primeira vez é desconfortável? E tem gente que se acostuma na segunda?

Como se não tivesse prestado atenção, o médico falou:

- Vá até aquela mesa e fique na posição. O Sr. sabe, “de quatro” – disse o médico, deixando escapar um sorriso debochado.

O avental que Flowers usava deixava toda a parte de trás aberta, e quando o Dr. Guilherme ia começar o exame, perguntou:

- O Sr. se incomoda que chame alguns colegas que estão na sala ao lado para auxiliarem e acompanharem o exame?

- Não, não vejo problemas... - e por um instante pensou, “eu acho”.

O médico saiu, e após poucos segundos – Américo ainda continuava naquela posição constrangedora – entraram pela porta sete jovens, que o deixaram ainda mais envergonhado. Quando a porta estava fechando, alguém a empurrou e disse:

- Espera, sou eu!

E ele reconheceu a voz. Não teve nem coragem de levantar o rosto. Com certeza a voz era de Ticiane. E ela também o reconheceu:

- Oi Américo, que coincidência?

- Muita – disse ele, de modo irônico.

A partir daquele momento, a relação médico-paciente ficou seriamente abalada, uma porque jamais imaginou que os “colegas” do médico fossem estudantes; outra, pela completa falta de sensibilidade com que o Dr. Guilherme fazia o exame nele, comentando detalhes de sua região anal como se estivesse descrevendo alguma fruta, inclusive indicando defeitos em sua anatomia. Além disso, apesar do médico não saber que Américo conhecia Ticiane, ele jamais o perdoaria, e só tentava controlar a raiva que sentia, torcendo para chegar ao fim daquilo que mais parecia uma tortura psicológica.

Terminado o exame, foi embora sem se despedir de ninguém, e tomou uma decisão: não teria mais condições de olhar para Ticiane depois daquela tarde. Quando estava entrando no carro ouviu seu nome, e ao olhar para trás pode ver que ela corria em sua direção com algo nas mãos.

- Você esqueceu a carteira, deve ter caído! – disse ela, ainda ofegante.

- É, deve. Bem, vou indo.

- Espera! Não precisa ficar com vergonha de mim. Imagino que deve ter sido constrangedor, mas não precisa ficar assim. Afinal de contas, vou ver esse tipo de coisa a vida toda.

- É, pode ser. Mas não precisava ter visto a minha “coisa”.

Caíram na gargalhada. E só pararam de rir quando ela aceitou o convite dele para jantar aquela noite.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A RUIVA COM RAIVA



Ainda não lembro de uma vez em que eu tenha pegado um táxi, trocado algumas palavras com o motorista, e ele não tenha se achado íntimo para me contar uma história mirabolante, por vezes sobre um casal de passageiros que o convidou para fazer um ménage à trois, ou de duas meninas de 20 anos que queriam experimentar com ele uma aventura digna de um filme pornô.
Dessa vez, algo naquele homem de cinqüenta e poucos anos fez com que eu acreditasse na história que ouvi. Irani Pedro Soares – era o nome que aparecia na placa de registro – pareceu-me um homem calado, até que comentei qualquer coisa sobre uma loira deslumbrante que passava perto do táxi.
- Linda, realmente linda, mas nem perto da passageira que apareceu há uns três meses atrás! – retrucou ele.
E sentindo que queria falar sobre ela, incentivei-o, num tom pouco interessado.
- Tá bom, se o Sr. quer ouvir eu conto - disse ele.
E desfez-se a minha ideia sobre taxistas que falam pouco.
- Um dia desses, recebi uma chamada por volta das 19h pra pegar uma passageira. Sei exatamente a hora, porque era praticamente a minha última corrida. Quando cheguei pra pegá-la, saiu da portaria de um edifício uma mulher linda, devia ter uns 35 anos, ruiva, olhos azuis, usando botas de couro e uma saia marrom, e dava para ver que a moça tinha uma cinturinha fina e quadris que escondiam alguma safadeza.
Comecei a rir e devo ter repetido em voz alta as suas últimas palavras, porque ele parou de falar e começou a me olhar desconfiado. Pedi desculpas e insisti pra que continuasse.
- Bem, ela era uma lindeza, e perguntou se eu tinha tempo e gostaria de ganhar um bom dinheiro. O Sr. sabe, vida de taxista não é fácil, “de formas” que faço qualquer coisa pra ganhar um dinheirinho extra. Só que já fui avisando que sacanagem eu não faço, nem nada ilegal. E ela disse pra eu não me preocupar. Quando chegamos na Av. Sete de Setembro, ela pediu para ficarmos esperando no táxi, e não tirava os olhos de um prédio, acho que era uma agência bancária. Depois de quase meia-hora ali, e depois de conversarmos um pouco, apareceu um homem alto com o braço em volta da cintura de uma morena muito bonita, mas certamente não tão bonita quanto a minha passageira. Foi quando olhei pelo espelho retrovisor e vi que estava furiosa, as buchechas vermelhas, numa combinação com os cabelos que chegava a dar medo, parecia que ia pegar fogo, e gritava coisas que nunca imaginei ouvir de uma mulher daquelas. O Sr. sabe o que eu quero dizer, mulher que nem ela, que aparenta ter caráter a gente nem desconfia que tem a boca suja.
E eu só pensava o que é que o caráter tinha a ver com isso, mas...
E ele prosseguiu:
- Pois então, não é que o desgraçado era marido da moça, e depois de abrir a porta para a morena, entrou no carro e saiu. Deu pra ver que ela não era nenhuma amiguinha, porque em cada sinaleira dava umas “bitoquinhas” na safada. A dona Eliana, minha passageira, só me pedia para continuar seguindo o marido de longe, que dinheiro não era problema, e foi o que fiz. Segui-o durante mais uma meia-hora, ouvindo tudo que era desaforo e lamentação, até que o sujeitinho... - e virou-se para mim, talvez para ver se eu estava prestando atenção:
- O Sr. nem vai acreditar onde é que ele entrou?
- Num motel, eu acho!? – numa tentativa curiosa para que ele pudesse terminar a história antes de chegar ao meu destino.
- Exatamente! E a mulherzinha atrás de mim parecia que tava tendo um ataque, gritando que ia se vingar, que ele era um canalha, que ela tinha sido uma idiota, e outras palavras que tenho até vergonha de repetir. Só sei que depois de um tempo pediu para que eu a levasse a um bar, porque ela queria “encher a cara”. E foi aí, moço, que eu me empolguei.
- Por quê? – indaguei apressadamente.
- O Sr. não vai imaginar o que ela disse?
- Fala logo, meu amigo!!! – retruquei sem paciência, embora estivesse me divertindo com aquela história.
- Ela disse que ia dar para o primeiro homem que aparecesse na frente dela. Fiquei todo emocionado, cheguei a estufar o peito. O Sr. nem acredita, mas tava tão perturbado com o que ela tinha dito, que cheguei a falar que ia cobrar só a corrida, e que não queria mais nenhum dinheiro dela. A moça sorriu, agradeceu, e entrou no bar, pediu um uísque, me ofereceu outro, mas eu disse que estava trabalhando e não podia. Depois de umas três doses já estava bem faceira, e disse que queria ir para casa, que ia se arrumar, e repetiu que ia dar para o primeiro homem que visse. Fiquei pensando o que é que eu era, pra ela ficar repetindo isso a toda hora. Só sei que entrou no táxi e pediu para levá-la até em casa, e esperasse, que queria ir a alguma boate, porque precisava encontrar um homem naquela noite. A essa altura eu já tinha até me arrependido de dizer que não ia cobrar o tempo extra.
- E onde é que o Sr. a levou?
- Calma, moço! Cheguei na casa dela, e foi aí que me pediu pra subir e esperar lá em cima. Cheguei a ficar suado, só de pensar. “Agora me dei bem!”, eu pensei. Ela abriu a porta, entrou no apartamento, e disse que já voltava. Não é que ela voltou mesmo, bem rapidinho, só de calcinha e sutiã. Uma loucura de mulher.
- Então, o Sr. conseguiu?
- Quem dera! Sem querer, devo ter feito uma cara de tarado, porque ela pediu desculpas, e saiu correndo. E eu só repetia em voz alta: “Agora eu já vi!”, “Agora eu já vi!”, mas era tarde.
- E ela?
- Pois é, saiu correndo, eu não sabia se ia atrás dela, mas foi aí que ela gritou lá de dentro, dizendo que ia se arrumar e pediu pra eu esperar. E não parava de pedir desculpas. Comecei a ficar até com raiva da desgraçada. Quando ela voltou toda arrumada, bem cheirosa, a raiva passou...
Nesse instante, o táxi chegou na frente do prédio em que eu tinha que desembarcar. Mas antes de descer, perguntei:
- E o que aconteceu depois?
- Nada, moço. Nadica de nada! Só sei que alguém se deu bem aquela noite, e não fui eu. Mas a dona Eliana ainda me liga sempre... sempre que precisa de um táxi.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

MAIS UMA RECEITA DE ANO NOVO


Para que seu Ano Novo seja realmente novo, lindo como o arco-íris, ou entusiasmante como o calor do sol. Para que você comece o seu novo ano, não apenas remendado e chamado de “novo”, mas novo na esperança, no sorriso de uma criança que nasce, e explosivo como a lágrima da mãe que o abraça. Para você, que sabe receber novos abraços, ou mesmo os velhos, que são tão bons quanto os novos. Enfim, para você que ama a vida, esse elemento tão simples que se resume em apenas quatro letras, que de tão perfeita nem se nota, não é preciso lembrar-se das marcas causadas pelas dores passadas, nem recordar-se de momentos vazios, e arrepender-se de não tê-los preenchido. Não é necessário correr atrás do amanhã, e determinar-se: - Quando o janeiro chegar as coisas vão mudar! Não, não é nada disso...
Para ter-se um ano-novo, que realmente mereça este nome, basta que você o queira assim, e batalhe por mudanças, por aquilo que você quer, mas tente, experimente, invente. Cresça por pensar que não podia, e pode! Olhe-se e sinta aquela mudança interior, aquele friozinho na barriga, e permita-se aceitar. Quando isso tudo acontecer, lembre-se de mim, e simplesmente sinta meu beijo e um abraço bem apertado.
Feliz Natal e Próspero Ano Novo,
Artur.
Inspirado em "Receita de Ano Novo" de Carlos Drummond de Andrade.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

NEM TUDO QUE É LUXO É LIXO


Nunca entendi direito como é que as pessoas avaliam as coisas e colocam nelas uma medida de valor extremamente alta, uma apreciação econômica que, por vezes, chega a atingir preços inimagináveis. Não tenho dúvida de que ligado a isso está uma induvidosa campanha de marketing promovida pela mídia, e por aí vai. Em realidade, o valor intrínseco das coisas não é medido somente pela qualidade, senão não teríamos tanta porcaria sendo vendida em escala diametralmente oposta ao que realmente valem.
Não me interprete mal, porque aqui não estou me referindo a sociedades capitalistas, a mercados financeiros, tampouco falo sobre questões sociológicas, do tipo “tanta gente morrendo de fome e as pessoas gastando rios de dinheiro com isso ou com aquilo”. Não. Refiro-me a coisas que em outra época ou lugar, de fato, não teriam o menor valor; falo, por exemplo, de roupas de grife ou qualquer outro produto que venha a ser comercializado com um valor extremamente alto se comparado com outras coisas da mesma espécie, às vezes até que possuem a mesma qualidade.
A própria cultura, uma representação teleológica da arte, que é uma abstração, também é valorizada pelo fato de ter um valor econômico, ou seja, se vale mais, mais vale ser apreciada, mesmo que tenhamos a consciência de que nem tudo que seja caro é realmente o melhor. E é exatamente sobre esse produto de consumo, por que é isso que o mercado da arte representa para muitos, que vou tecer alguns comentários.
Resolvi falar sobre isso porque recebi um vídeo de uma experiência realizada pelo jornal “The Washington Post” num metrô de Nova York, em que um homem de camiseta e boné começa a tocar um violino para as pessoas que passam, durante aproximadamente 45 minutos, e praticamente ninguém imagina o que está acontecendo, quase ninguém para e aprecia o verdadeiro presente que estão recebendo, ou seja, não percebem o valor do que estão ouvindo, a exceção de uma mulher que, ao final, inclusive reconhece o artista.
É possível que nem todos admirem a arte, em qualquer de suas acepções, apesar de eu ainda não entender como, porque a cultura mede algumas questões primordiais em relação a um país, como a educação. Há até aqueles que nem gostem muito de arte, seja sob a forma que vier. Na verdade, como tudo na vida, há sempre aqueles que são contra, simplesmente. Mas é indiscutível que a arte tem o seu preço. O que questiono é se percebemos isso naturalmente ou se somos guiados a apreciá-la por padrões que nos são impostos, uma valorização que talvez nem exista. Por exemplo, imagine uma obra de um pintor pouco conhecido, mas que acabe sendo confundida como um quadro de Michelângelo, e avaliada em alguns de milhões de dólares. Indubitavelmente, chamaria a atenção dos meios de comunicação, e que, por conseqüência, a ela seria atribuído um valor realmente expressivo, acarretando um interesse acima da média, inclusive daqueles menos adeptos à arte renascentista.
Pois bem. Aquele homem no metrô era nada mais, nada menos, do que Joshua Bell, e para quem não o conhece, é considerado um dos maiores violinistas do mundo, e basta acessar qualquer vídeo dele no YouTube para se ter certeza disso. No metrô, ele estava tocando um instrumento raríssimo, um “Stradivarius” de 1713, avaliado em aproximadamente 03 (três) milhões de dólares, e em seu repertório, alguns dos maiores clássicos da humanidade. Dias antes havia tocado no Symphony Hall, de Boston, em que alguns dos melhores lugares chegavam a custar mil dólares. Concluiu-se, por óbvio, que as coisas somente são valorizadas dentro de um contexto.
De minha parte, acredito que se deve entender isso da seguinte forma. Ao lado deste contexto, ou mais precisamente antes dele, há uma questão conceitual, uma valorização pactuada, e que, ao final, acaba sempre sendo traduzida em números. Digo isso porque, não obstante a qualidade da arte desempenhada por Joshua – o que me parece indiscutível –, o seu valor acaba sempre sendo refletido através da ótica daqueles que vão lucrar com isso, e por isso é inegável o esforço para agregar uma contextualização perfeita, uma sintonia o mais adequada possível para que o artista venha a ser reconhecido como o melhor, e para que se possa cobrar caro por isso.
Dessa forma, cabe a mim tirar uma única conclusão: aquele artista, supostamente anônimo, poderia ser considerado uma pintura de renome sem moldura, um artefato de luxo sem grife, e é exatamente por isso que tudo aquilo que não tem uma etiqueta nos indicando o seu devido valor, ou por uma falta de apreciação valorativa pessoal, muitas vezes acaba indo parar na lixeira.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

À ALGUÉM QUE AINDA NÃO CONHEÇO

"Somos feitos da mesma matéria que nossos sonhos."
William Shakespeare
Escrevo essa carta para você, que tem uma importância mais do que especial na minha vida, mas que ainda não conheço. Você que tem um significado abstrato, um desejo idealizado, porque ainda não convivemos, não criamos um vínculo, não começamos a escrever nossa história, e já sinto saudades dos momentos que não estamos juntos.
Os dias até podem ter a velocidade do tempo, mas um período sem ti é aquele que não passa, é lento, um vazio inominado, e aguardar quieto, calado, é quase um castigo. Tenho medo do tempo simplesmente passar e a gente acabar se perdendo, e nunca realmente se encontrar.
Sei que nossas escolhas indicam o significado que a vida terá no futuro, os motivos que levarão a tristeza pra bem longe, e os desejos que trarão nosso sorriso. Queria que esse meu sorriso fosse teu, que o teu olhar fosse meu, que tivéssemos estabelecido perspectivas de nosso destino, enfim, que fôssemos um só. Mas como posso estar certo de que seríamos felizes juntos se ainda não te conheço!? Pois é, tenho a convicção de que sim, e se porventura esquecer de dizer algum dia, aproveito e digo agora: é uma estranha sensação que chega a ser uma certeza!
Por instantes pensei ter te visto, sentido teu gosto e ficado paralisado com a vibração dos teus olhos. É que sonhei com detalhes sobre uma noite em que estávamos num deck qualquer, de onde víamos toda a cidade, um silêncio penetrante, constante, simplesmente nós, um homem e uma mulher. Tenho certeza de que éramos nós, pois os sonhos aproximavam-se da realidade, e depois de acordar não lembrava, pois como podia querer amar sem parar, quando tudo sempre mudava.
Quero que saibas que o caminho entre eu e você é uma linha tênue entre ser ou não ser. Quero que tenhas a consciência de que o amanhã é logo ali, e eu estarei lá te esperando. Quero que os teus dias até me encontrar sejam muito felizes, porque eu vou estar radiante por ter a certeza de que você vai chegar. Enfim, à você que pensa ainda não fazer parte da minha vida, saiba que já faz...

domingo, 6 de dezembro de 2009

POR QUE CHAMAM DE EVOLUÇÃO?

Não é possível como as coisas ainda acontecem assim após anos de "evolução".
Se parássemos pra pensar, ninguém conseguiria parar de chorar.
Só posso pedir pra não deixarem de ver o vídeo abaixo.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

UM VELHO RIVAL


Eram irmãos, mas já implicavam um com o outro desde criança, competindo por qualquer coisa. Ernesto e Geraldo, na verdade, valorizavam essa rivalidade, e diziam até que isso servia de incentivo para serem os melhores. Geraldo, por ter nascido antes, sempre ouvira dos pais a obrigação de cuidar do caçula, mas também sempre se aproveitava disso para impor ao irmão que o respeitasse, afinal de contas era o mais velho. Brigavam por qualquer coisa, desde um brinquedo que um havia ganho de aniversário e o outro não, até por coisas mais delicadas, como na adolescência, quando começaram a disputa por namoradas.
Quando adultos, resolveram morar sozinhos. Ernesto, por gostar muito das paisagens de Porto Alegre, em especial a do pôr do sol do Rio Guaíba, fixou residência próximo à Zona Sul da cidade. O outro decidiu que iria morar bem longe do irmão, de preferência na Zona Norte, mas por se sentir responsável por ele, e por ter feito uma promessa aos seus pais de que iria cuidá-lo sempre, acabou comprando um quitinete na Azenha. E pensava: “nem tão longe para que eu possa ficar de olho, nem tão perto para que ele possa vir me visitar a qualquer hora”.
Por coincidência do destino, ou não, ambos começaram a trabalhar com publicidade, e cada qual havia montado a sua própria agência. Consideradas as melhores do Estado, a cada ano competiam entre eles, e com outras agências do país, no intuito de mostrar que possuíam um diferencial, as melhores idéias, os melhores profissionais do mercado. Mas a competição era tanta, que às vezes chegavam a ajudar outras empresas do ramo só para ter a satisfação de ver o irmão “quase” levar o prêmio.
Nesse ano, isso se repetiu. Desde o início, Ernesto era considerado o favorito, e isso era evidenciado a cada mês, quando apresentava os seus trabalhos com tamanha dedicação que sempre acabava atingindo excelentes resultados. Por consequência, era praticamente questão de tempo para que lhe entregassem o prêmio, e isso iria ser também uma vitória para seus clientes, que sempre acreditaram no trabalho de sua agência, e reconheciam nela uma empresa sólida e com anos de experiência no mercado.
Acontece que as coisas começaram a não dar tão certo, os funcionários foram ficando relapsos, e o próprio Ernesto já não andava tão atento ao trabalho, até que uma empresa carioca, que não representava nenhum risco, decidiu contratar dois profissionais de renome, e começou a apresentar resultados supreendentes.
Mas havia uma saída. A ajuda de Geraldo poderia ser fundamental para que o prêmio viesse parar nas mãos da empresa de Ernesto. Certamente isso não seria fácil, inclusive porque a empresa daquele, não obstante o sucesso do passado, estava passando por sérias dificuldades, sem olvidar da rivalidade que sempre imperou na relação de ambos.
Nesta perspectiva, todos se perguntavam: Geraldo estaria disposto a abrir mão dessa antiga animosidade, e pôr fim a um embate que já durava uma vida inteira?! A resposta viria num domingo ensolarado, quando Geraldo foi até o Rio de Janeiro apresentar um trabalho feito por seus funcionários. No caminho, durante o vôo, seus pensamentos retornaram ao passado, e lembrou-se de todos aqueles momentos em que dependeu da ajuda do irmão. Tinha consciência de suas limitações, mas sabia que com algum esforço tudo poderia mudar, e o prêmio ficar em família.
“Em família, que ridículo!”, pensou ele.
Finalmente decidiu-se. Não prejudicaria Ernesto, afinal de contas era seu irmão. E concluiu, pensando em voz alta, sentindo-se livre da promessa feita aos pais: “Ah, mas ele já é bem grandinho, e sabe se cuidar!”
Durante a reunião, o projeto foi apresentado a um grande cliente, que se impressionou com os detalhes e o esforço empreendido, mas não viu a possibilidade de grandes resultados, pois não era o que o mercado necessitava. Optando pelo projeto daquela grande empresa carioca, dispensou a de Geraldo, que retornou a Porto Alegre pouco satisfeito com a derrota, mas com um leve sorriso nos lábios.
No mesmo dia, o Flamengo venceu o Grêmio por 2 x 1, e sagrou-se Campeão do Brasileirão. O Internacional ficou com o vice-campeonato, e com uma lição: apesar do profissionalismo das equipes, sempre haverá espaço para o deboche.