sábado, 8 de outubro de 2011

SEGREDOS DO CORAÇÃO

Quando a gente ama muito alguém, não enxerga a situação por inteiro, não observa todos os detalhes, aquelas perspectivas ocultas de uma relação que parece ser única, para toda uma vida! Fazemos planos, inventamos um olhar, que apenas nós entendemos, escolhemos nomes, acreditamos em nossos sonhos, como se eles estivessem ali, bem ao alcance das mãos. E tudo parece inacreditavelmente perfeito, pronto para acontecer. Mas, às vezes, não acontece!
Podemos dizer que nesse momento surge uma pergunta que parece não querer sair da cabeça: Por quê? Porque algo que era tão lindo, forte, e, praticamente, certo, apenas acaba, e não diz aonde foi! A resposta é simples: ainda não estávamos preparados. Por isso, a vida se encarrega de separar o que já teve o seu tempo, sem dar explicação nem nada. Apenas isso, um pra cá e o outro pra lá. Parece o fim de uma brincadeira infantil, em que o melhor de tudo era sorrir ao lado dele (ou dela). Era como encontrar o seu amor escondido em algum canto de si mesmo, e emprestar-lhe uma força que até você desconhecia que tinha. E terminar dizendo: te encontrei! É emprestar os seus brinquedos (amigos, família, lembranças) sem sentir-se egoísta, porque você quer tanto que aquela pessoa esteja ao seu lado, que lhe conheça por inteiro. E tanto faz se quebrar, ou deixar pra devolver outro dia, contanto que esteja sempre por perto para brincar.
Tomar a decisão de pôr um ponto final numa relação com alguém que você ainda ama, posso afirmar, está no topo da minha lista das piores coisas da vida. Só perde para um grave problema de saúde. E digo isso porque a dor que fica é algo inexplicável, é um vazio que surge como o silêncio, que insiste em te incomodar sem dizer nada. Você liga a televisão, pega o telefone, procura um amigo, você resolve colocar em dia aquela leitura atrasada. Desiste! Não há o que possa te ajudar na hora em que aquela tristeza aparece, de repente, sem pedir licença, sem te explicar nada.
E aí só resta deixar o tempo passar, acreditar que tudo que aconteceu tem um motivo, que não era pra ser, que a vida sabe o que faz, que vocês não foram feitos um para o outro; desculpas você encontra, o difícil é acreditar nelas, por mais que se comece a perceber as pequenas diferenças que incomodavam tanto ontem, hoje você até sente falta delas.
O difícil é perceber que o amor não basta. E o engraçado é isso, justamente o que se considera mais importante, não é o que garante o sucesso de uma relação. Como eu gostaria de dizer que existe uma fórmula secreta para isso, os meus problemas estariam resolvidos. Os seus também! Mas não há. Conforme-se!!! O fato é que cada um tem a sua receita. E com base nela é que vamos acrescentando os ingredientes para dar mais sabor à vida, elementos tão particulares e, por vezes, complexos, que somente o destino poderá explicar o que há por trás desse mistério.
E se existe um plano para esses encontros e desencontros, tenha sempre em mente o seguinte: respeite quem você ama, acima de tudo, e tenha a paciência necessária para que a vida se encarregue de te ensinar o que é preciso! Aproveite cada minuto ao lado de quem você ama, para que não haja arrependimentos e lamentações.
A você, que me ensinou tanto, e que sempre me fez tão bem, saiba que sou uma pessoa melhor e mais feliz por ter tido a oportunidade de brincar ao teu lado. Obrigado!

PS. E um Feliz Dia das Crianças para todos nós, para que nunca deixemos de acreditar em nossos sonhos...

domingo, 2 de outubro de 2011

O PASTEL

Tinha saído cedo de casa e, apressada, não havia tomado o café, porque o médico tinho lhe pedido para ser uma das primeiras a chegar, que talvez conseguisse encaixá-la em algum horário. De fato, foi atendida, mas apenas no final daquela manhã, em que tudo conspirava para testar sua paciência. Ligou para o chefe e explicou o atraso, e afirmou que estava saindo do consultório e, dali a meia-hora, estaria chegando ao trabalho. Atrasada, decidiu comer qualquer coisa pelo caminho, algo rápido e que pudesse aliviar a fome, que começava a incomodar o estômago. Também pudera, a última refeição havia sido aquele sanduíche no final do dia anterior.
No caminho para o escritório, pensou na pastelaria da esquina, que servia um pastel de carne com azeitonas que era uma maravilha. E um refrigerante bem gelado! De imediato, sentiu a água acumular em sua boca. Podia também passar na loja de empadas ao lado, e comprar aquela de camarão, que fazia um sucesso nos arredores.
Pastéis, sanduíches, empadas, refrigerantes... quanta porcaria estava ingerindo ultimamente, e pensou em sua genética que lhe favorecia, porque qualquer uma, com a vida sedentária que levava, e considerando o que andava comendo, estaria enorme de gorda. Ela não, apesar de não ser tão alta, era muito elegante, magra, e agora, com aquele novo corte de cabelo, andava sentindo-se bonita e um pouco mais empolgada. Um pouco só, pensou, e lembrou-se como andava desanimada de uns tempos para cá. Nada que umas férias não melhorassem o ânimo, aquela energia que sempre teve, mas que havia desaparecido nos últimos meses de trabalho.
Estava há duas quadras da pastelaria quando recebeu um panfleto de um homem, bem apessoado e sorridente, que lhe falou de um produto que prometia milagres. Olhou para aquele pedaço de papel, e já ia jogá-lo no chão, quando decidiu dar uma olhada rápida, parecendo interessada, talvez para agradar aquele senhor que distribuía aquela propaganda de uma forma tão simpática e gentil. E uma frase escrita no papel a fez parar: "Aumente sua disposição e vigor pela vida com uma alimentação mais saudável!".
Sem que precisasse falar qualquer coisa, aquele homem começou a falar sem parar sobre o produto que prometia, além de mais energia, um meio de alimentação completo e rápido, e que a ajudaria, inclusive, a emagrecer ou a engordar um pouco mais, dependendo do que ela pretendesse.
Ele continuou explicando como funcionava, e apontou a porta de um prédio, numa rua próxima e completamente deserta. Lá, disse ele, eram servidos sucos, chás e shakes à base de um produto que ela já ouvira falar, e que, segundo ele, possuía tudo o que era necessário para saciá-la de uma forma sadia e correta, substituindo uma refeição. Perguntou se ela queria lhe acompanhar, que seria rápido, e uma experiência que ela não se arrependeria. E ela o seguiu, um pouco desconfiada, e pensando: "o que estou fazendo?" Mas continuou caminhando.
Quando o homem abriu a porta, e ela entrou, ouvindo, de imediato, às suas costas, a porta fechando, foi o momento em que se sentiu arrependida. A sala era pequena, com algumas prateleiras, e uns potes que faziam referência ao produto anunciado. Não era muito iluminada, e ele pediu que a acompanhasse através de outra porta mais ao fundo. Ela já não sabia mais se deveria ir, porque talvez passar daquela porta significasse não ter mais como pedir socorro, uma vez que ninguém sabia onde ela estava. E se ele fosse um louco, e se quisesse machucá-la, e se tudo não passasse de uma fachada para roubar os seus órgãos, como havia lido em um email tempos atrás. Mas ficou constrangida pelos seus pensamentos, e o homem, percebendo sua insegurança, disse que lá atrás, sua mulher era quem preparava os produtos.
Ela ficou mais tranquila, porque ouviu vozes, e decidiu acompanhá-lo mais um pouco.
Ao chegar lá, a porta novamente fechou-se atrás dela, e pode observar umas três pessoas sentadas, um tanto quanto caladas, tomando líquidos em copos e chícaras. O cheiro do local lembrava a casa da avó, talvez pela umidade e o frescor dos chás que emanavam no ambiente.
Ela sentou-se, e uma mulher que se apresentou como "a esposa" perguntou o seu nome, e, depois de uma rápida conversa, pediu que ela aguardasse, e seguiu para uma área da sala separada por uma cortina, que percebeu ser a cozinha do local.
Minutos depois, ela estava tomando um chá amargo, e sentiu que todos a olhavam. E o homem não saía do seu lado. O medo novamente se apossou dela. Por que ele não parava de encará-la. E se aquelas pessoas estivessem ali participando de tudo com o casal? E se ela fosse a vítima perfeita? E se tivessem colocado algo em seu chá para que ela desmaiasse? Eram tantos "e se" que ela tomou o chá tão rápido que queimou a língua. Decidiu ir embora, mas a mulher já vinha com um copo cheio de um líquido branco, o que fez com que ela voltasse a sentar. O gosto também não era bom.
E o desespero só aumentava. Ela começou a sentir um calor no corpo, aquilo não estava certo, e uma espécie de pavor tomou conta dela, e sem pensar em nada largou o copo e levantou-se muito rápido. Sentiu tudo girar, um calafrio no corpo inteiro, pensamentos de horror, e tudo ficou escuro.
Acordou num quarto pouco iluminado, sozinha e desnorteada, e lembrou-se de tudo que havia acontecido. Quanto tempo teria ficado desacordada? O que estava acontecendo? Seus medos começavam a fazer sentido.
Procurou pela bolsa e visualizou-a sobre uma cadeira. Imediatamente, levantou-se e apanhou-a com rapidez, procurando o aparelho celular. Precisava avisar alguém, dizer onde estava, se é que ainda estava no mesmo lugar de antes. O celular havia sumido.
- Claro, como sou burra, estava tudo armado. O que vou fazer agora?
Nesse exato momento, alguém aproximou-se da porta do quarto. Ao abri-la, aquela mulher que havia lhe servido o chá apareceu, sorridente, perguntando se ela estava bem.
- O que aconteceu? Onde estou? - falou, afobada.
- Você desmaiou. Acho que estava muito tempo sem comer, pelo que havia me dito. E ficou fraca. - E o meu celular?
- Pois é, quando estávamos te trazendo para cá, ele tocou e tomei a liberdade de atender, e era seu namorado, mostrando preocupação.
- Eu preciso ligar para ele. Onde está o celular, por favor! - falou apressada.
E da porta, uma voz masculina anunciou:
- Não precisa, amor, estou aqui.
Uma sensação de alívio invadiu todo o seu corpo, e ela o abraçou energicamente.
A mulher acompanhou o casal até a porta de saída, e o namorado indagou:
- Que loucura foi essa? O que te deu pra vir aqui?
- Vou te contar tudo... mas primeiro, por favor, vamos até a esquina. Preciso comer um pastel!

sexta-feira, 8 de abril de 2011

ELLA

Há anos meus amigos enchem o saco para que eu procure a porra de um terapeuta. Desde que minha mulher morreu num acidente de carro, pra ser mais específico. Dizem que sou muito impaciente com o sexo oposto. E tímido. Ridículo! O que sou é seletivo, por isso nunca encontrei uma mulher até agora que valesse a pena. É verdade que sempre achei essa história de terapia coisa de maluco, ou talvez seja pura e simples ignorância minha, mas como dizem por aí, se de gênio e louco todo mundo tem um pouco, resolvi experimentar. Na realidade, nunca procurei ajuda porque não via problema algum em tachar a maioria das mulheres como vagabundas. Quase todas que conheci são mesmo. À exceção das minhas falecidas mãe e esposa, é claro! Umas santas! Que Deus as tenha.
O fato é que me rendi às constantes pressões e, no auge dos meus 45 anos, finalmente comecei a fazer análise. Aliás, acabo de chegar do consultório da Dra. Ella Ribeiro, psicóloga, 35 anos, amiga de uma amiga, a Elvira. Essa sim, a pior de todas! Nunca teve um namorado. Jamais teve um, porque eram sempre dois ou três ao mesmo tempo. E, para o meu azar, resolveu não dar justo pra mim, dizendo que eu era muito especial, que não queria estragar nossa amizade. Viu, como eu disse, va-ga-bun-da!
Logo que cheguei, fiquei aguardando na recepção do consultório, lendo uma revista, dessas de fofoca do mundo artístico. Mais uma vez fiquei convencido de que o mundo só tem mulher que não presta. A Fulana que se separou do Ciclano e está namorando o melhor amigo dele, que já foi visto circulando num restaurante famoso com uma menina 30 anos mais jovem. Putaria total esse mundo da televisão.
A porta abriu e surgiu uma mulher de óculos, alta, pele clara e corpo de modelo. Um espetáculo! Olhos azuis, eu acho. Um cóqui alinhando perfeitamente aqueles cabelos loiros que deixavam à mostra um pescoço fino, realçado por dois brincos de argola dourada. O sorriso acompanhado das palavras “Muito prazer, entre!!!” fez com que a revista escapasse das minhas mãos e caísse no chão. E pensei: “Que idiota eu sou”.
- O prazer é meu – respondi meio sem jeito.
Sentamos, cada qual em sua poltrona, e ela começou perguntando algumas coisas que respondi sem pensar. Nome, idade, estado civil, essas besteiras. Não conseguia tirar os olhos dos pés dela. Sou viciado em pés, e os dela eram perfeitos. Mas acho que ela notou meu fetiche, porque interrompeu o questionário no meio, cruzou as pernas, e perguntou:
- Sr. Rafael, o que o traz aqui?
- Hããã... – resmunguei, desconcertado.
- Gostaria de saber o motivo do senhor ter me procurado.
- Ah, sim. Bem, eu nem sei direito. Muitos amigos insistiram, disseram que seria bom. Enfim, estou aqui, eu acho, porque eles acham que eu preciso.
- Mas por que eles acham isso?
- Eles dizem que tenho dificuldade de me relacionar com as mulheres depois que fiquei viúvo. Digamos assim, que não consigo me aproximar delas. Pura bobagem.
- Entendi. O senhor é tímido?
- Não, seletivo – retruquei rapidamente.
- Pois bem. Há quanto tempo o senhor ficou viúvo? E o silêncio irrompeu o ambiente durante uns 30 segundos.
- Doutora, eu posso pedir dois favores? Meu nome é Rafael. Não precisa me chamar de senhor. E gostaria de deixar minha falecida mulher fora dessa conversa. Posso lhe garantir que ela não tem nada a ver com nenhum problema meu. Está tudo superado.
- E por que o Sr...., desculpa, por que você acha isso?
- Bem, digamos que antes dela morrer já tínhamos decidido nos separar. Na verdade, ela decidiu por nós. Dizia que éramos muito diferentes, que não deveríamos ter casado, e que o divórcio era inevitável. Eu não entendi nada, mas aceitei. Uma semana depois que ela saiu de casa, numa madrugada, recebi uma ligação comunicando o acidente. Fiquei muito triste, mas, fazer o quê? Ela já tinha tomado a decisão de não me ver mais. Eu sofri muito, mas não tinha mais nada a ver com ela.
Os minutos passaram, e a cada palavra Ella parecia ficar mais interessada na história, enternecida, e quanto mais eu dizia que não queria falar no casamento, mais ela utilizava subterfúgios para me fazer tocar no assunto. E sorria. Um sorriso meigo e cativante. Mexeu no cabelo, e o cóqui se desfez sem querer, caindo sobre os ombros, e ela ficou mais sexy do que nunca. Eu nem ligava em estar falando sobre o período em que fui casado, estava encantado com aqueles olhos, com aquele sorriso que me provocava. Lá pelas tantas eu pedi um copo de água, só para ver ela de pé. Foi quando tive a certeza de que estava definitivamente apaixonado. Ela levantou – parecia que estava se movendo em câmera lenta –, largou o bloco em que fazia as anotações por sobre a poltrona, e ao andar até a mesa onde estava a jarra de água, pude perceber que a cintura era minúscula, contrastando com aquela bunda maiúscula. Todo o meu corpo enrijeceu. Todo! E sentia um calor infernal a cada vez que ela cruzava as pernas.
Durante a sessão, diversas vezes fiquei extasiado enquanto ela falava, vendo aqueles lábios emoldurando o seu sorriso perfeito. Não uma, mas várias vezes me pegava olhando para ela e imaginava situações em que estávamos juntos, em que éramos um casal. Um casal muito feliz! No final da consulta, agradeci, disse que tinha sido um prazer conhecê-la, e insisti que pretendia fazer umas duas ou três sessões por semana, não obstante a argumentação dela de que não eram necessários tantos encontros.
Na saída, fiquei aguardando o táxi na recepção do prédio, e notei um jovem impaciente ao telefone, falando com a namorada.
- Hoje eu não posso, amor, eu já disse. Tenho fute na facul. E amanhã estou indo pra praia com a galera. A gente vai surfar todo o final de semana... Tá bom, te ligo à noite... Também te amo, gata! E desligou. Olhou para mim, e sorriu. Um rapaz bonito, não fossem as espinhas no rosto, marcas recentes da puberdade. Um sinal sonoro indicava a chegada do elevador. As portas abriram-se, e com passos firmes naquela saia justa a linda Dra. Ella vem na minha direção, sorrindo, o mesmo sorriso de minutos atrás. Passou por mim como se eu fosse invisível, e deu um beijo na boca daquela criança ao meu lado.
Não tenho dúvidas: são todas vagabundas!!!!

segunda-feira, 21 de março de 2011

ENCERRANDO CICLOS

Meus amigos, li recentemente um texto publicado em um blog, de autoria desconhecida. Notei também que já havia sido reproduzido em vários outros blogs. Como se encaixa perfeitamente ao momento que estou passando, e como faz meses que não escrevo nada, achei que nada melhor do que um incentivo para voltar a fazê-lo. Acontece que, como é de autoria desconhecida, permito-me fazer algumas alterações para ficar mais com a minha cara. Mas já adianto que a ideia essencial não é minha, apenas me ajudou a aceitar o que não posso mudar. Pode ser útil pra você também!

Quer saber! Sempre é preciso descobrir quando uma etapa chega ao final. E mais. Aceitar que isso aconteceu. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas. E, podem ter certeza, precisamos vivê-las.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram, independente de você querer ou não que tivessem continuado. O que, de fato, me parece essencial é ter forças para fazer um novo presente. E encontrar um novo futuro.
Entenda: Foi despedida do trabalho? Terminou uma relação na qual você tinha certeza que era o amor da sua vida? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão cuidadosamente cultivada desapareceu sem explicações? Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu; pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.
O importante é ter a perfeita noção desta perspectiva: ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. O que passou não voltará mais: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar. As coisas passam, e o melhor a fazer é deixar que elas realmente possam ir embora. É doloroso, eu sei, mas tem que ser feito. Uma hora para de doer, e você se sentirá muito melhor. Por isso é tão importante destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem. Não será fácil, mas será melhor pra você mesmo.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração… e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar. Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que desvendem seu gênio, que entendam seu imenso amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais. Pare de sentir pena de si próprio. Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do “momento ideal”. Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará! Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa – nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida, mesmo que você se sinta magoado ou triste pelo fim. A decisão já foi tomada. As coisas já estão diferentes. Quer você queira, quer não. Assim, feche a porta, mude o disco, limpe a casa. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Verá que a alegria estará lá, de um jeito novo... do seu jeito.
Enfim, sacuda a poeira, esqueça quem você era, e passe a ser quem é agora.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"MEA CULPA"

Falar de política não é tarefa muito fácil. Isso acontece porque, além dos radicais, temos que conviver com aqueles que, mesmo não sendo extremistas, simplesmente não aceitam que o voto é individual, e implica simpatia, seja ela à pessoa, partido ou ideologia. Mas vamos lá!
Tenho muito respeito pela democracia. Sendo mais preciso, pelo processo democrático! Qualquer pessoa que esteja no pleno exercício de seus direitos políticos, e que preencha os requisitos previstos pela Carta Maior de nossa Nação, pode se apresentar perante os milhões de brasileiros, e candidatar-se para representar os cidadãos, tomar decisões por eles, em prol do chamado bem da coletividade. E qualquer um, com um mínimo de capacidade de gestão, pode e tem o direito – desculpem-me a repetição proposital – de lutar por esse direito.
Até aí tudo bem! O problema começa quando temos que conviver com a possibilidade de que alguns dos eleitos, salvo equívoco pessoal, não possuem a menor capacidade de gestão da coisa pública. E a coisa fica mais grave, na medida em que acabamos preferindo a vitória de um Tiririca em detrimento de uma Mulher Pêra, a qual mostrou sua indignação ao não ver apurado nenhum voto a seu favor, quando acreditava realmente que seria eleita. Convenhamos, no final das contas, sorte a nossa! E não estranharia se no meio do discurso do nosso Deputado Federal mais votado, fosse usada a expressão a que sempre se referiu aos seus ouvintes: “Abestados!”. Pois é assim que me sinto, um perfeito e legítimo abestado. Tenho que rir da minha própria desgraça.
Em contrapartida, a eleição para a Presidência da República mostra-se, no mínimo, instigante. Se de um lado o já ganhou da candidata à sucessão do Presidente Lula, Dilma Roussef, deu lugar à expectativa de um segundo turno, diante da vitória moral da candidata representante do Partido Verde, do outro se pode observar que o povo brasileiro está no caminho, mas ainda não se mostra cônscio de sua condição de cidadão, de valorizar essa pátria tão grande e não mais tão desimportante, como outrora já disse Cazuza.
Acreditar em um futuro melhor para o nosso país não pode ser encarado como um sonho. Antes de mais nada, tem que ser um objetivo. Dessa forma, eleger representantes que orientem diretrizes para o nosso bem estar e nos proporcionem melhores condições de vida não é apenas um direito político. É mais do que isso! Hoje, considero-a uma obrigação. E o erro é nosso quando pensamos que os culpados são eles. Depois de eleitos, quem tem que fazer alguma coisa no dia a dia somos nós, de modo a participar ativamente da cidadania, respeitar os direitos individuais e observar com atenção o que está sendo feito, porque não quero ver meus filhos reclamando que nasceram em um país onde nunca fiz nada para mudar. O caminho é longo, mas é nosso: meu e teu! Por isso, aqui faço um “mea culpa”. Vou procurar agir mais e reclamar menos. Tente fazer o mesmo.
E nesse ritmo, Brasil, quero ver a tua cara, na esperança de que um dia não exista mais quem pague pra gente ficar assim, tão desinformado, desnorteado e inconformado com a falta de direção, seja ela qual for. E talvez, quem sabe, não tenha que rir da minha própria desgraça!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O JOGADOR


- Que desgraça, quantas vezes preciso dizer pra não me ligar no meio do jogo! – berrou Zizo com a mulher.
Os amigos nem se espantavam mais, apesar de um ou outro fazer uma cara de desgosto pelo modo como ele falava com a esposa ao telefone quando estava à mesa de poker. Dizia ele que trazia sorte, esse desagrado e irritação que provocava nela era tudo que precisava para começar a ganhar. E, coincidência ou não, tudo parecia conspirar para isso, porque era só ela desligar, furiosa com ele, que a sorte parecia surgir como num passe de mágica.
Infelizmente, Rita não sabia dessa superstição do marido, e talvez não o tivesse abandonado aquela noite.
Zizo chegou tarde, com muito dinheiro na carteira, mas com a cabeça dando voltas em razão do excesso de bebida alcoólica que havia consumido. Assim, só foi perceber a ausência de Rita quando levantou e foi tomar o café da manhã. A mesa não estava posta, e a mulher já tinha saído para o trabalho. Isso nunca havia acontecido.
Achou estranho, porém resolveu deixar as coisas esfriarem, pois sabia que ela ficava furiosa, mas depois sempre lhe dava mais uma chance. E ele nunca mencionava a tal superstição. Achava melhor assim. Com o dinheiro do jogo comprava algumas flores, e tudo ficava bem.
À noite, ela não voltou para casa, e percebeu que o armário dela estava entreaberto. Abriu-o e quase caiu para trás quando não viu nenhuma roupa guardada. Pensou em roubo, sequestro, mas logo se deu conta do que estava acontecendo. Ela havia partido.
Nos primeiros dias, tentou entrar em contato através do celular, sempre desligado. Tentou a casa da mãe dela, com quem ele não falava desde o primeiro ano de casamento. Os dois nunca se deram muito bem, por isso, logo que se identificou dizendo que estava desesperado atrás de Rita, a sogra desligou o telefone, não sem antes alertar:
- Finalmente ela recobrou um pouco de consciência, seu inútil! E não ouse aparecer aqui para procurá-la. Eu juro que chamarei a polícia!
Ele não se preocupou com o aviso, e foi correndo para o prédio da sogra. Só não imaginava que a ameaça seria concretizada. Teve de sair do edifício escoltado por dois policiais.
Algumas tentativas frustradas no trabalho dela, e decidiu que o destino se encarregaria de ajeitar as coisas.
Após duas semanas, resolveu retomar a vida, os amigos, o jogo das terças-feiras à noite. Se ela não o queria, outras apareceriam. Uma fila de mulheres desejavam um homem como ele: simpático, fiel, trabalhador e bom de cama (ele adorava dizer isso para si próprio, tentando se convencer que ela não conseguiria um amante melhor).
E na terça-feira seguinte, lá estava ele de novo, chegando à casa de um dos amigos com uma garrafa embaixo do braço, e com a expectativa de por em prática a sua técnica, e testar de novo a sua sorte. Para ninguém perceber nada, pediu para um sobrinho ligar por volta das dez horas da noite. Na hora combinada, o telefone tocou, e ele começou a gritar impropérios, como se estivesse falando com a esposa. O silêncio foi sepulcral quando, exatamente três minutos depois de desligar o celular, perdeu todas as fichas numa única aposta. Isso nunca havia acontecido. Nem ele acreditava na sua falta de sorte.
Essa situação se repetiu na semana seguinte, e na outra, até que pediu para o sobrinho não ligar mais, circunstância que não alterou em nada as derrotas contínuas. Depois de um mês, decidiu parar de beber, pois toda vez que chegava em casa, sem dinheiro e frustrado, percebia a ausência de Rita, e, fragilizado pelo álcool, notava que a existência dela em sua vida era mais importante do que podia imaginar. E chorava como criança.
Passados cinco meses, quando saía do supermercado, naquela terça-feira, antes de ir para a jogatina habitual, encontrou Rita. Ela parecia mais bonita do que nunca, e sua vontade era correr em sua direção, pedir desculpas, implorar para que voltasse, mas era orgulhoso demais para isso. Ela o olhou com tristeza, e passou por ele sem mencionar uma palavra. Zizo ficou com os olhos marejados, e, num ato-reflexo, gritou seu nome.
Rita parou, olhou por sobre o ombro, e continuou andando.
E ele, engolindo o orgulho, falou em voz alta:
- A culpa é minha, e sei que te devo explicações!
Ela parou, e Zizo foi ao seu encontro, acompanhando-a até o carro. Ajudou-a com as compras e foram tomar um café. Ele pediu desculpas, implorou que ela voltasse para casa, que sentia muito a sua falta, e explicou a razão de sua grosseria nas noites do poker. Ela não conseguia acreditar naquela besteira de azar no amor e sorte no jogo, a qual ele insistia em dizer que funcionava. De qualquer forma, apesar de relutante, aceitou as condições impostas por ela e prometeu nunca mais discutir ao telefone, principalmente nas noites de terça-feira.
Naquela noite, pela primeira vez, em anos, ele faltou ao jogo, porque decidiu que era mais importante recuperar o que acreditava ter de mais valioso. E, nas semanas seguintes, sempre que fazia suas apostas, tinha a sensação de que a sorte não lhe sorriria mais como antes. Não ligava, pois, mesmo perdendo, era o homem mais sortudo do mundo ao ver Rita sorrindo quando chegava em casa.

Final alternativo:
Ela parou, e Zizo foi ao seu encontro, acompanhando-a até o carro. Ajudou-a com as compras e foram tomar um café. Ele pediu desculpas, implorou que ela voltasse para casa, que sentia muito a sua falta, e explicou a razão de sua grosseria nas noites do poker. Ela não conseguia acreditar naquela besteira de azar no amor e sorte no jogo, a qual ele insistia em dizer que funcionava. De qualquer forma, apesar de relutante, aceitou as condições impostas por ela e prometeu nunca mais discutir ao telefone, principalmente nas noites de terça-feira.
Do supermercado foram direto para casa, transaram como há muito não faziam, e ele disse que precisava ir, porque tinha confirmado presença e era homem de palavra. Ela não acreditou que depois de tudo que tinha acontecido, ele a deixaria em casa àquela noite e iria jogar poker com os amigos. Discutiram, ela gritou com ele, disse que nunca mais queria vê-lo e, chorando muito, foi embora. Horas depois ele voltou para casa, completamente bêbado e desnorteado, mas com os bolsos cheios de dinheiro.
(qualquer semelhança com pessoas ou circunstâncias reais constitui mera coincidencia)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A MORTE QUE SE VIRE SOZINHA!



Depois de quase três meses de abstinência literária, e de uma recente reflexão para modificar minha atitude em relação aos meus reais desejos de satisfação pessoal, decidi voltar a escrever. Além disso, vários amigos vêm me cobrando textos novos, e isso também ajudou para que saísse da inércia. Diferente do que possa parecer, não havia desistido, só andava sem muita inspiração... ou preguiça mesmo! O fato é que volto ao hábito de dividir com vocês meus pensamentos (ideias e ideais), enfim, a razão de existir deste blog.

Pois bem, o assunto de hoje tem relação com a intenção de melhorar minha qualidade de vida. Sendo mais preciso, decidi largar o cigarro! Finalmente criei vergonha na cara, e resolvi parar de comprar o meu câncer.

É provável que várias das pessoas que me conheçam, quando lerem essa crônica, fiquem espantadas, pois talvez nem saibam que eu, durante quase dezessete anos, fumei! Pois é, na fase adulta, trinta e poucos dias sem, e quase duas décadas com. Nos bares, em festas, no carro, em casa, nas viagens, qualquer lugar e motivo eram suficientes para puxar uma carteira e saciar esse desejo inexplicável. Por vezes, incontrolável. Quem fuma sabe do que estou falando. Conseguimos segurar a vontade por algum tempo, mas quando é protelada por horas, e sentimos a boca salivar, só o que se pensa é na necessidade de uma tragada para aliviar aquela sensação de falta, de algo que até agora não sei o que é. Digamos apenas que se trata de um vazio indefinido.

Confesso que seguidamente me envergonhava do vício. A roupa fedia, o hálito não era nada agradável, o paladar ficava evidentemente alterado, e a resistência física nem se fala, cada vez pior. Tantos contras que eu mesmo não acreditava que aquele pedacinho de papel enrolado com tanta porcaria conseguisse me dominar de um jeito sensivelmente irracional.

Outra coisa de que me envergonhava era o fato de ter começado a fumar numa idade em que já deveria ter alguma consciência do prejuízo futuro. Só que acender um cigarro parecia certo, a melhor coisa no mundo, um prazer momentâneo inconsequente, uma sensação de liberdade incondicional.

Em geral, associava a algum tipo de prazer, uma espécie de complemento às extasiantes noites divertidas, à pacificidade de um momento íntimo, um divisor de águas entre a tranquilidade e a excitação. Em contrapartida, havia os períodos solitários. Nesses, eu o considerava um passatempo. Na verdade, era mais do que isso! O cigarro era um companheiro invisível, porque a solidão com ele era bem mais fácil de ser assimilada. Um estado de espírito aceitável, a parceria silenciosa à espera de um amigo atrasado; um conforto bem-vindo nas horas que não passavam no aeroporto; um alívio causado por uma angústia. Uma forma de amortecer a dor.

Sempre que pensava em parar de fumar, acabava aumentando o consumo. Muitas das vezes era simples compulsão, como se tentasse retaliar minha decisão, uma espécie de compensação ao fato de saber que um dos meus melhores prazeres estava com os dias contados. Em outras, pura ansiedade mesmo pela chegada do dia fatal. Sei que impor um dead line é fundamental, mas quem disse que eu conseguia. Foram inúmeras vezes que cheguei muito perto. Muito perto mesmo!

Bem, depois de acender e tragar uma centena de cigarros na minha vida, e de passar pela experiência de várias tentativas frustradas para acabar com esse vício que me satisfazia de uma forma que sempre achei duvidosa – uma dessas tentativas quase foi bem sucedida (repito: quase), já que durou uns dez meses – decidi que era hora de me reinventar em definitivo, e resolvi viver de um jeito diferente, sem um desses prazeres que causa tanto desprazer ao longo do tempo, consciência que só fui adquirir recentemente.

E nessa nova fase estou me sentindo muito melhor, de consciência limpa por estar me cuidando de forma correta, menos culpado em relação às minhas escolhas, e muito mais vivo, por assim dizer. Se minha vida agora fosse um poema, poderia dizer que o gosto não sente mais vergonha do beijo, o corpo lembra agora uma poesia em silêncio, feita só de cheiro, e o futuro está vindo aos poucos, por conta própria, sem ninguém que o impeça de ocupar seu espaço.

Então é isso, estou novamente me impondo regras, estabelecendo uma nova postura diante das minhas atitudes, à espera ansiosa do sucesso da minha decisão. Tenho certeza de que dessa vez vou conseguir, e sabem por quê? Porque agora tenho uma excepcional razão para seguir adiante, um motivo que intensifica minhas emoções e faz eu querer mais, criando em mim expectativas de ir mais longe, o máximo que der. Cada um deve achar a sua, eu encontrei a minha.

Enfim, larguei o cigarro, e querem saber, estou acreditando muito mais em mim desta vez. Mas posso afirmar para quem estiver lendo essa crônica que não é nada simples, porque a vontade ainda tenho, apenas que agora exerço um controle maior sobre ela. É complicado, mas vamos lá!

E diante de tudo que estou passando, cheguei a uma conclusão em relação às experiências que tive: largar o cigarro é fácil! Difícil mesmo é parar de fumar.