quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O JOGADOR


- Que desgraça, quantas vezes preciso dizer pra não me ligar no meio do jogo! – berrou Zizo com a mulher.
Os amigos nem se espantavam mais, apesar de um ou outro fazer uma cara de desgosto pelo modo como ele falava com a esposa ao telefone quando estava à mesa de poker. Dizia ele que trazia sorte, esse desagrado e irritação que provocava nela era tudo que precisava para começar a ganhar. E, coincidência ou não, tudo parecia conspirar para isso, porque era só ela desligar, furiosa com ele, que a sorte parecia surgir como num passe de mágica.
Infelizmente, Rita não sabia dessa superstição do marido, e talvez não o tivesse abandonado aquela noite.
Zizo chegou tarde, com muito dinheiro na carteira, mas com a cabeça dando voltas em razão do excesso de bebida alcoólica que havia consumido. Assim, só foi perceber a ausência de Rita quando levantou e foi tomar o café da manhã. A mesa não estava posta, e a mulher já tinha saído para o trabalho. Isso nunca havia acontecido.
Achou estranho, porém resolveu deixar as coisas esfriarem, pois sabia que ela ficava furiosa, mas depois sempre lhe dava mais uma chance. E ele nunca mencionava a tal superstição. Achava melhor assim. Com o dinheiro do jogo comprava algumas flores, e tudo ficava bem.
À noite, ela não voltou para casa, e percebeu que o armário dela estava entreaberto. Abriu-o e quase caiu para trás quando não viu nenhuma roupa guardada. Pensou em roubo, sequestro, mas logo se deu conta do que estava acontecendo. Ela havia partido.
Nos primeiros dias, tentou entrar em contato através do celular, sempre desligado. Tentou a casa da mãe dela, com quem ele não falava desde o primeiro ano de casamento. Os dois nunca se deram muito bem, por isso, logo que se identificou dizendo que estava desesperado atrás de Rita, a sogra desligou o telefone, não sem antes alertar:
- Finalmente ela recobrou um pouco de consciência, seu inútil! E não ouse aparecer aqui para procurá-la. Eu juro que chamarei a polícia!
Ele não se preocupou com o aviso, e foi correndo para o prédio da sogra. Só não imaginava que a ameaça seria concretizada. Teve de sair do edifício escoltado por dois policiais.
Algumas tentativas frustradas no trabalho dela, e decidiu que o destino se encarregaria de ajeitar as coisas.
Após duas semanas, resolveu retomar a vida, os amigos, o jogo das terças-feiras à noite. Se ela não o queria, outras apareceriam. Uma fila de mulheres desejavam um homem como ele: simpático, fiel, trabalhador e bom de cama (ele adorava dizer isso para si próprio, tentando se convencer que ela não conseguiria um amante melhor).
E na terça-feira seguinte, lá estava ele de novo, chegando à casa de um dos amigos com uma garrafa embaixo do braço, e com a expectativa de por em prática a sua técnica, e testar de novo a sua sorte. Para ninguém perceber nada, pediu para um sobrinho ligar por volta das dez horas da noite. Na hora combinada, o telefone tocou, e ele começou a gritar impropérios, como se estivesse falando com a esposa. O silêncio foi sepulcral quando, exatamente três minutos depois de desligar o celular, perdeu todas as fichas numa única aposta. Isso nunca havia acontecido. Nem ele acreditava na sua falta de sorte.
Essa situação se repetiu na semana seguinte, e na outra, até que pediu para o sobrinho não ligar mais, circunstância que não alterou em nada as derrotas contínuas. Depois de um mês, decidiu parar de beber, pois toda vez que chegava em casa, sem dinheiro e frustrado, percebia a ausência de Rita, e, fragilizado pelo álcool, notava que a existência dela em sua vida era mais importante do que podia imaginar. E chorava como criança.
Passados cinco meses, quando saía do supermercado, naquela terça-feira, antes de ir para a jogatina habitual, encontrou Rita. Ela parecia mais bonita do que nunca, e sua vontade era correr em sua direção, pedir desculpas, implorar para que voltasse, mas era orgulhoso demais para isso. Ela o olhou com tristeza, e passou por ele sem mencionar uma palavra. Zizo ficou com os olhos marejados, e, num ato-reflexo, gritou seu nome.
Rita parou, olhou por sobre o ombro, e continuou andando.
E ele, engolindo o orgulho, falou em voz alta:
- A culpa é minha, e sei que te devo explicações!
Ela parou, e Zizo foi ao seu encontro, acompanhando-a até o carro. Ajudou-a com as compras e foram tomar um café. Ele pediu desculpas, implorou que ela voltasse para casa, que sentia muito a sua falta, e explicou a razão de sua grosseria nas noites do poker. Ela não conseguia acreditar naquela besteira de azar no amor e sorte no jogo, a qual ele insistia em dizer que funcionava. De qualquer forma, apesar de relutante, aceitou as condições impostas por ela e prometeu nunca mais discutir ao telefone, principalmente nas noites de terça-feira.
Naquela noite, pela primeira vez, em anos, ele faltou ao jogo, porque decidiu que era mais importante recuperar o que acreditava ter de mais valioso. E, nas semanas seguintes, sempre que fazia suas apostas, tinha a sensação de que a sorte não lhe sorriria mais como antes. Não ligava, pois, mesmo perdendo, era o homem mais sortudo do mundo ao ver Rita sorrindo quando chegava em casa.

Final alternativo:
Ela parou, e Zizo foi ao seu encontro, acompanhando-a até o carro. Ajudou-a com as compras e foram tomar um café. Ele pediu desculpas, implorou que ela voltasse para casa, que sentia muito a sua falta, e explicou a razão de sua grosseria nas noites do poker. Ela não conseguia acreditar naquela besteira de azar no amor e sorte no jogo, a qual ele insistia em dizer que funcionava. De qualquer forma, apesar de relutante, aceitou as condições impostas por ela e prometeu nunca mais discutir ao telefone, principalmente nas noites de terça-feira.
Do supermercado foram direto para casa, transaram como há muito não faziam, e ele disse que precisava ir, porque tinha confirmado presença e era homem de palavra. Ela não acreditou que depois de tudo que tinha acontecido, ele a deixaria em casa àquela noite e iria jogar poker com os amigos. Discutiram, ela gritou com ele, disse que nunca mais queria vê-lo e, chorando muito, foi embora. Horas depois ele voltou para casa, completamente bêbado e desnorteado, mas com os bolsos cheios de dinheiro.
(qualquer semelhança com pessoas ou circunstâncias reais constitui mera coincidencia)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A MORTE QUE SE VIRE SOZINHA!



Depois de quase três meses de abstinência literária, e de uma recente reflexão para modificar minha atitude em relação aos meus reais desejos de satisfação pessoal, decidi voltar a escrever. Além disso, vários amigos vêm me cobrando textos novos, e isso também ajudou para que saísse da inércia. Diferente do que possa parecer, não havia desistido, só andava sem muita inspiração... ou preguiça mesmo! O fato é que volto ao hábito de dividir com vocês meus pensamentos (ideias e ideais), enfim, a razão de existir deste blog.

Pois bem, o assunto de hoje tem relação com a intenção de melhorar minha qualidade de vida. Sendo mais preciso, decidi largar o cigarro! Finalmente criei vergonha na cara, e resolvi parar de comprar o meu câncer.

É provável que várias das pessoas que me conheçam, quando lerem essa crônica, fiquem espantadas, pois talvez nem saibam que eu, durante quase dezessete anos, fumei! Pois é, na fase adulta, trinta e poucos dias sem, e quase duas décadas com. Nos bares, em festas, no carro, em casa, nas viagens, qualquer lugar e motivo eram suficientes para puxar uma carteira e saciar esse desejo inexplicável. Por vezes, incontrolável. Quem fuma sabe do que estou falando. Conseguimos segurar a vontade por algum tempo, mas quando é protelada por horas, e sentimos a boca salivar, só o que se pensa é na necessidade de uma tragada para aliviar aquela sensação de falta, de algo que até agora não sei o que é. Digamos apenas que se trata de um vazio indefinido.

Confesso que seguidamente me envergonhava do vício. A roupa fedia, o hálito não era nada agradável, o paladar ficava evidentemente alterado, e a resistência física nem se fala, cada vez pior. Tantos contras que eu mesmo não acreditava que aquele pedacinho de papel enrolado com tanta porcaria conseguisse me dominar de um jeito sensivelmente irracional.

Outra coisa de que me envergonhava era o fato de ter começado a fumar numa idade em que já deveria ter alguma consciência do prejuízo futuro. Só que acender um cigarro parecia certo, a melhor coisa no mundo, um prazer momentâneo inconsequente, uma sensação de liberdade incondicional.

Em geral, associava a algum tipo de prazer, uma espécie de complemento às extasiantes noites divertidas, à pacificidade de um momento íntimo, um divisor de águas entre a tranquilidade e a excitação. Em contrapartida, havia os períodos solitários. Nesses, eu o considerava um passatempo. Na verdade, era mais do que isso! O cigarro era um companheiro invisível, porque a solidão com ele era bem mais fácil de ser assimilada. Um estado de espírito aceitável, a parceria silenciosa à espera de um amigo atrasado; um conforto bem-vindo nas horas que não passavam no aeroporto; um alívio causado por uma angústia. Uma forma de amortecer a dor.

Sempre que pensava em parar de fumar, acabava aumentando o consumo. Muitas das vezes era simples compulsão, como se tentasse retaliar minha decisão, uma espécie de compensação ao fato de saber que um dos meus melhores prazeres estava com os dias contados. Em outras, pura ansiedade mesmo pela chegada do dia fatal. Sei que impor um dead line é fundamental, mas quem disse que eu conseguia. Foram inúmeras vezes que cheguei muito perto. Muito perto mesmo!

Bem, depois de acender e tragar uma centena de cigarros na minha vida, e de passar pela experiência de várias tentativas frustradas para acabar com esse vício que me satisfazia de uma forma que sempre achei duvidosa – uma dessas tentativas quase foi bem sucedida (repito: quase), já que durou uns dez meses – decidi que era hora de me reinventar em definitivo, e resolvi viver de um jeito diferente, sem um desses prazeres que causa tanto desprazer ao longo do tempo, consciência que só fui adquirir recentemente.

E nessa nova fase estou me sentindo muito melhor, de consciência limpa por estar me cuidando de forma correta, menos culpado em relação às minhas escolhas, e muito mais vivo, por assim dizer. Se minha vida agora fosse um poema, poderia dizer que o gosto não sente mais vergonha do beijo, o corpo lembra agora uma poesia em silêncio, feita só de cheiro, e o futuro está vindo aos poucos, por conta própria, sem ninguém que o impeça de ocupar seu espaço.

Então é isso, estou novamente me impondo regras, estabelecendo uma nova postura diante das minhas atitudes, à espera ansiosa do sucesso da minha decisão. Tenho certeza de que dessa vez vou conseguir, e sabem por quê? Porque agora tenho uma excepcional razão para seguir adiante, um motivo que intensifica minhas emoções e faz eu querer mais, criando em mim expectativas de ir mais longe, o máximo que der. Cada um deve achar a sua, eu encontrei a minha.

Enfim, larguei o cigarro, e querem saber, estou acreditando muito mais em mim desta vez. Mas posso afirmar para quem estiver lendo essa crônica que não é nada simples, porque a vontade ainda tenho, apenas que agora exerço um controle maior sobre ela. É complicado, mas vamos lá!

E diante de tudo que estou passando, cheguei a uma conclusão em relação às experiências que tive: largar o cigarro é fácil! Difícil mesmo é parar de fumar.


segunda-feira, 26 de abril de 2010

PARA SEMPRE: ELE E ELA

No alto daquele edifício, apenas observava as luzes da cidade. À sua volta havia pessoas, a maioria delas desconhecida. Foi quando a viu chegando, incrivelmente linda. Ela nem o notou. Mas ele percebeu, num único instante, o que o coração por vezes demora uma vida inteira pra dizer. Foram apresentados. Era pra ser! Ela achou que o conhecia. Ele, que acreditava em vidas passadas, já sabia. Conversaram. E, logo em seguida, se afastaram...
Falou com outra. Ela notou! De repente, voltou. E a noite assim transcorreu até a hora em que trocaram mais que olhares, todos os sentidos aflorados pelo toque das mãos. Pegou-a pelo braço. Ela deixou-se levar. E, sentindo o frio da noite, encostaram seus lábios e aqueceram-se, enternecidos...
Mas essa história não podia ficar assim, sem um fim. Encontraram–se dias depois. E mais outro. Viajaram juntos e trocaram juras de amor; só queriam estar perto todo o tempo do mundo, sem entender por quê. Mas seria preciso saber? “A gente simplesmente quer!” – diziam eles, e isso bastava para os dois. E pensavam: “Ah, seja o que Deus quiser, seja o que for!!!”.
Estranhos que antes nunca se encontraram, mas que sentiam se conhecer a vida toda. Amantes que dividiam seus sonhos, e falavam do céu e do mar, do sol e da luz refletida pelo luar. Foram passando o tempo juntos, uma expectativa por saber o que aconteceria depois. E não sabiam o significado do que todos chamavam de felizes para sempre, mas decidiram que iriam descobrir. E assim, desse jeito curioso, transformaram o que sentiam um pelo outro na primeira e mais linda história sem fim...

segunda-feira, 12 de abril de 2010

GATO PRETO


Ainda lembro o dia em que conheci meu amigo de infância e vizinho de praia. Gerônimo era daquelas crianças tímidas, sem amigos, um gordinho sem graça. Minha mãe insistiu para que os novos vizinhos viessem jantar com a gente. Achei um saco! Por conta disso, tive que sair mais cedo do jogo de futebol de rua, a maior curtição naquela época. Aquele cara, além do nome engraçado, tinha uma cara de nerd, um perfeito abobado que usava umas roupas estranhas. Durante o jantar ele mal levantava o rosto, e apenas emitia grunhidos num sentido afirmativo quando minha mãe perguntava se queria comer mais massa. Acho que deve ter esvaziado uns quatro pratos. “Chega, filho!”, dizia o pai dele, parecendo constrangido.
A cada verão que chegava, era obrigado a suportar a sua companhia lá em casa, uma vez que meus pais e os dele se tornaram grandes amigos. Ainda bem que moravam no interior, e só nos víamos na praia, senão teria que aguentar isso durante todo o ano. Não apenas os jantares a que me obrigavam a participar, mas a insistência dos meus pais para que eu me aproximasse dele me incomodavam muito.
Com o passar do tempo, fui me acostumando àquela inconveniente presença, e o ignorava, até o dia em que, numa daquelas festas organizadas para adolescentes, uns garotos bem mais velhos do que eu resolveram aleatoriamente me eleger como saco de pancadas. Foi voltando pra casa, sempre mantendo uma boa distância daquele garoto encorpado, a quem me impuseram ser amigo, que ouvi uma voz chamando:
- Imbecil! Tá achando que vai aonde? – gritou comigo um garoto mal encarado, acompanhado de dois amigos, que mais pareciam guarda-costas.
Resolvi não responder e apressei o passo, mas não adiantou. O maior deles veio correndo e, sem que eu percebesse, acertou-me uma voadora. Quando caí, ainda meio tonto e sem ar, e apavorado com o que estava por vir, observei que Gerônimo lutava com eles. Deu um soco num, um chute noutro, e juntando os punhos ao queixo, lançou um olhar cheio de ódio para aquele outro rapaz menor que havia gritado comigo. Ele bem que tentou, mas seu soco foi desviado, e em apenas três movimentos, Gerônimo derrubou-o e, aproximando-se de mim, estendeu uma mão e disse sem olhar nos meus olhos:
- Vem! Corre!
Olhei para trás e os três ainda gemiam no chão. A partir desse dia nos tornamos bons amigos, apesar de ainda achar ele muito estranho. Nunca entendi como podia ser um monstro de tão forte, lutar daquele jeito, e ao mesmo tempo mostrar-se tão submisso aos pais, tão amável com eles.
Vinte anos depois nossa amizade de verão ainda continua, mas não tem mais o convívio de antes, seja pelo trabalho, que me possibilita vir apenas nos finais de semana, seja pela carência da minha esposa. Hoje em dia, inclusive, ela exige ainda mais, de um jeito quase irritante, que eu esteja sempre perto para cuidar dos gêmeos. Eles nasceram em março, e requerem um cuidado literalmente redobrado.
Nessa sexta-feira, quando cheguei na praia, minha mulher reclamava de um gato preto que não saiu do pátio durante toda a semana. Fui até lá, e avistei o felino. Adoro cachorros, mas gatos me irritam. Parecem-me impassíveis aos humanos, como se fôssemos dispensáveis. Não confio nem um pouco neles, ainda mais agora que tenho filhos. Ouvi falar que transmitem toxoplasmose, e eu não correria esse risco. Por isso, fui em sua direção e o espantei. Dez minutos depois, lá estava ele novamente.
- Gato idiota! – gritei, sem a menor paciência.
E corri novamente de encontro a ele. Fugiu. Alguns minutos depois, lá estava o bichano mais uma vez. “Está se achando mais esperto do que eu, é?!”, pensei, com um leve sorriso no rosto, mas indignado. Entrei em casa, fui ao quarto, e voltei. Eu o observava de longe. E, lá fora, já estava escuro.
Ele ficou inerte durante uns cinco minutos, parecia que fitava a lua. Hipnotizado. Aproveitei o seu momento de distração e cheguei sorrateiramente perto dele com um lençol. Consegui apanhá-lo, transformei aquele tecido num saco, dei um nó, e gritei para minha esposa dizendo que já voltava.
Devo ter dirigido por umas dez quadras, e desliguei o motor. Desci do carro com ele nas mãos, desfiz o nó e o bicho saltou de lá num miado agudo, não sem antes cravar aquelas garras em mim.
- Ai, gato filho da puta! – gemi, apertando o braço, na área em que fui atacado.
Voltei para o carro, ainda sentindo dor, mas aliviado com o êxito do meu plano.
Quando cheguei em casa fui ver os gêmeos, dei um beijo em minha mulher, contei o que tinha acontecido, e lhe mostrei o que o gato havia feito. Ela ficou horrorizada, mas pude perceber o alívio em seu rosto. Fiz um curativo em meu braço, desci ao pátio para tomar um vinho, sentar em minha cadeira preferida, e apreciar o resto daquela noite. Já estava na terceira taça, quando ouvi um miado. Era ele de novo, no mesmo lugar em que eu o havia encurralado.
Levantei sem paciência alguma, fui até lá, a passos leves, e agarrei-o por trás, pelo pescoço. Lancei-o com força em direção ao terreno baldio que circundava o meu. Um miado estridente seguido de um barulho seco, e tudo ficou silencioso. Olhei por sobre a cerca, mas a escuridão me impediu de ver o que tinha acontecido. Fui até a garagem e peguei uma lanterna.
Ao iluminar aquele espaço em que o havia atirado, apavorei-me com a cena que vi. Ele tinha caído em cima de umas garrafas quebradas que estavam no chão, e o bicho acabou empalado. Uma das garrafas atravessara aquele corpo mole, e ele ficou estaqueado com as pernas traseiras apontando para baixo, e a cabeça do outro lado, também pendia inerte. Senti ao mesmo tempo nojo e pena, mas não havia mais nada que eu pudesse fazer. Era uma mistura de pelos, carne e sangue esparramada no terreno abandonado. Aquele líquido vermelho escorria por entre os cacos de vidro, escurecendo tudo ao seu redor. E pensei conformado:
- Amanhã eu vejo o que vou fazer. Agora já é tarde.
Sentindo-me arrependido, pedi desculpas inutilmente àquele animalzinho imóvel, e ainda abalado com o que tinha acontecido, fui em direção à porta de casa. De repente, Gerônimo apareceu:
- Oi, cara! Como andam as coisas? – falei, aliviado por encontrar um rosto amigo.
- Tudo bem, mas estou chateado. Não consigo achar meu bichinho de estimação.
E uma pergunta inocente e triste retumbou em mim como aquela voadora que levei anos atrás:
- Você não viu meu gato preto?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

NEM PENSE EM NÃO SER FELIZ!




Sem dúvida alguma, a Praia do Rosa, em Santa Catarina, é um daqueles lugares a que podemos atribuir a existência de uma energia diferenciada. Revitaliza, pacifica, e potencializa a nossa própria energia. Cheguei de lá ontem à noite, com uma sensação de leveza na alma, renovação no espírito, poucas vezes sentida por mim. Mas o corpo, ah, esse está um bagaço. Culpa de quem? Das oito horas de viagem na volta pra casa.

Desculpem, mas estou indignado! Oito horas é demais. Não para uma viagem, mas para o percurso percorrido. Em condições normais, não demoraria mais do que quatro horas. E querem saber a causa da lentidão no trânsito? Obras inacabadas na estrada, principalmente em focos que considero primordiais para resolver o problema, o que poderia ser solucionado com um pouco mais de organização. Por que não juntar esforços para resolver esses problemas específicos antes de se dar continuidade a um projeto de tal importância? Ou eu sou muito burro, ou quem fiscaliza o andamento dessas obras, cuja previsão de encerramento era 2008 (?), é cego ou deve estar tendo sérios problemas nesse processo, e aí eu calo a minha boca.

Bem, mas o que interessa – e é sobre isso que quero falar – é que com todas as dificuldades, a viagem de volta tinha tudo para ser estressante, irritante, massante, todos esses adjetivos que rimam e combinam com aquela sensação de perda de tempo. Curiosamente não foi! Durante o caminho, eu e um amigo (uma espécie de irmão que a vida me deu) fomos cadenciando de forma divertida o tempo considerado perdido, alternado por momentos preciosos de silêncio. E num desses momentos, vendo o tempo simplesmente passar, é que comecei a divagar sobre um assunto.

Comecei a pensar naqueles períodos difíceis desse percurso chamado vida, de tristeza, de angústia, de desespero, péssimos momentos que fogem ao nosso controle, e que por vezes parecem não ter fim. A perda de um amor, a morte de um ente querido, a impotência pra resolver uma situação extrema, como uma doença grave na família, a visão de uma cena violenta e chocante seguida da sensação de repulsa e indignação, uma agressão verbal e gratuita. É, a vida é repleta desses acontecimentos ruins, e não há nada o que se possa fazer.

Acontece que existe algo sobre o qual temos controle absoluto e quase sempre nos esquecemos disso. Estou falando dos outros momentos, e que são a maioria! Daqueles que, de modo consciente, nos permitem sermos senhores de nossos atos, nos fazem agir por simples impulso, ou apenas nos proporcionam observar a vida sem interferência. Em todos eles deveríamos perceber o que isso significa, e chegar à conclusão inevitável: viver é perfeito demais! Na hora em que as pessoas se derem conta disso, cada abraço, beijo, olhar, sorriso ou diálogo terá uma sensação diferente, distinta da simples ideia de que representam apenas os cinco sentidos.

Reflito sobre isso e não consigo descobrir a razão para não valorizarmos tudo a todo o momento, e nos sentirmos sempre felizes. Em paz, no mínimo! A isso eu chamo de viver, incondicionalmente. Aproveitar o que temos à nossa volta deveria ser uma obrigação constante, e não uma opção, sem esquecer de que ainda podemos melhorar a cada dia. Os japoneses têm até uma expressão para isso: kaizen, que significa melhoria contínua, gradual.

Tenho visto pessoas que reclamam demais, exigem ainda mais, de si e dos outros, quando na verdade deveriam estar vivendo com a consciência plena de que o amanhã pode não estar mais lá, do jeito que sempre gostaram e só não percebiam. Com isso, não estou dizendo que devemos nos conformar, ficando na inércia, deixando tudo como está. Em realidade, a mudança é mais do que imprescindível para esse aprimoramento pessoal. Apenas não se pode ficar impassível diante dos detalhes que nos cercam, da beleza que as minúcias representam, da valorização individual das nossas escolhas e, somado a isso, da busca incessante pela concretização dos nossos sonhos.

Eu já decidi! Não vou mais perder meu tempo. Nem pensar em não ser feliz. E com a certeza de que quero voltar assim que for possível para aquele lugar espetacular que me deu tanto prazer, e me fez tão bem. Mas com a esperança de que os percalços para chegar até aquele paraíso estejam resolvidos. Estou ansioso para que chegue 2008!


domingo, 21 de março de 2010

VIVER PARA SEMPRE


Existe uma razão para tudo na vida. Inclusive para o fato de eu estar na frente do computador hoje, postando essa crônica que você está lendo.

Tudo começou com um sonho que tive. O sonho da minha morte, do fim dos meus planos, da minha vida, mas um recomeço para outras pessoas, o início de uma vida da qual não participaria mais. O que aconteceria a partir de agora provavelmente não faria a menor diferença para mim, afinal de contas eu não estaria mais aqui mesmo.

Acontece que no meu funeral as pessoas lamentavam com pesar a minha ausência infinita, a falta que faria. Dentre os amigos e familiares que falavam sobre minha vida, surgiram lembranças de momentos que passamos juntos, evidências aparentes de que nossa vida sempre encosta na dos outros, e deixa marcas indeléveis, mesmo que não se perceba. Mas até quando?

Por coincidência do destino, li em uma crônica da Martha Medeiros, alguns dias depois, que a nossa existência não finda com a morte física, circunstância inevitável na vida de todos. Não, definitivamente não! A nossa morte de fato acontece, sim, com a morte da última pessoa que lembrar e falar de nós, que tiver a sua vida tocada, de um jeito ou de outro, por alguma coisa que fizemos ou dissemos. É inegável, portanto, que nossos atos representam o marco inicial para que possamos viver mais, viver eternamente, se assim fosse possível.

Não lembro qual foi a época em que ouvi aquela expressão de que uma pessoa só deve morrer depois que houver tido um filho, escrito um livro e plantado uma árvore. Nunca fez muito sentido para mim, até o dia em que li aquela crônica.

Ninguém quer ser esquecido! Eu, pelo menos, garanto que gostaria de partir deixando um legado, uma história que valesse a pena ser contada, momentos que tivessem um valor inestimável para serem lembrados. Sinto falta daqueles amigos que já foram, uns mais cedo do que outros, mas o que realmente importa é que lembro e falo deles até hoje, mantenho a salvo a sua memória dentro da minha.

Assim, tudo isso pode ser visto da seguinte forma: ter um filho provavelmente não seja uma opção para todos. Talvez nem um desejo. Mas com certeza é uma rara oportunidade de legar às futuras gerações um pedacinho de nós. Plantar uma árvore com certeza reflete um auxílio real e concreto para que nossa prole cresça melhor, e possa ter uma vida que de fato mereça esse nome. Agora, escrever um livro – e nesse sentido nenhuma restrição ao seu instrumento, pois vale tudo, desde que fique registrado em algum lugar o que pensamos, criamos, refletimos e amamos – identifica nossas ideias aos nossos desejos e ideais, representa o que somos, escritores, poetas, filósofos ou artistas, seres que pensam e sentem, e são capazes de tudo, inclusive de evitar serem esquecidos, e de permitir viver além da própria existência.

Essa é a origem desse blog. Essa é a origem do livro que comecei a escrever.

Obrigado, Martha Medeiros!!!

segunda-feira, 15 de março de 2010

O TARADO

Júlio não se sentia nada bem, numa necessidade de urinar fora do comum. Precisava de um banheiro urgente, mas como tinha ido àquele shopping center apenas para pegar uma encomenda, e sabia que não demoraria, decidiu ser rápido para não ter que pagar o estacionamento. Coisa de pão-duro, ele sabia, mas conseguiria aguentar, afinal de contas, de carro, não demoraria mais do que 15 minutos até chegar em casa.

Saiu apressado do shopping, conseguindo evitar o pagamento. Mas a partir dali arrependeu-se amargamente. Nos minutos que se seguiram, o suor descia pelas têmporas, pelas costas, calafrios pelo corpo todo, maldizendo essa sua mania idiota de economizar com bobagens, afinal de contas quatro reais eram uma pechincha frente ao sofrimento que estava passando. Uma dor lancinante na lateral do abdômen fazia com que perdesse a paciência com os outros motoristas que se demoravam a arrancar quando o semáforo abria, que andavam lentamente naquele trânsito infernal. “Imbecis!!! Ninguém mais sabe dirigir hoje em dia!”, esbravejava de dentro do carro.

Em alguns minutos, que lhe pareceram horas, não conseguia mais raciocinar. Foi quando, num lampejo de lucidez, lembrou de um supermercado que havia no caminho. Lá ele recordava de um banheiro, e quase urinou nas calças só de pensar em estar na frente do vaso sanitário.

Sem pensar em mais nada, aumentou a velocidade, e quase atropelou um moto-boy que ultrapassou o sinal vermelho. Poucos minutos depois chegava ao tal supermercado. Desceu do automóvel correndo, e esqueceu até de verificar se havia trancado as portas. “Azar, podem levar esta merda”, pensava ele, impaciente.

Com muita pressa, e andando de forma desesperada e contorcida, subiu as escadas até o segundo andar a passos largos, e entrou no corredor em que havia os banheiros, ultrapassando a primeira porta que viu. Sem pensar em mais nada, já foi entrando em um dos boxes e abaixando as calças. Chegou a se sentar, tamanha a dor que sentia. E o alívio foi imediato! Chegava a sorrir sozinho, divertindo-se consigo mesmo só de lembrar de sua sovinice.

Foi quando, num relance, pensou não ter visto aqueles vasos sanitários de parede, que costumeiramente se vê nos banheiros masculinos. Será que teria entrado no banheiro... não, não podia ser! E começou a ouvir vozes de crianças, de meninas rindo e conversando. Vozes que se aproximavam rapidamente, até que teve a certeza do seu equívoco, e de que na pressa havia errado a porta. Definitivamente, aquele era o banheiro feminino.

As crianças falavam sem parar, e riam. Brincavam entre elas. Ele rapidamente fechou a porta do box em que estava, e percebeu que a porta não o escondia completamente, já que possuía um vão de uns 20 cm na altura dos pés. Sentado, elevou as pernas apoiando-as contra a porta. Não sabia mais o que fazer. Estava desesperado. E as mães das meninas entraram logo em seguida.
Não tinha dúvidas de que se o descobrissem gritariam, chamariam a segurança, quem sabe até a polícia! Tarado seria o menor dos adjetivos. E a vergonha o menor de seus problemas.

Outras vozes femininas invadiram o ambiente, três jovens falando da noite anterior, do “gatinho” que uma delas tinha beijado, irmão de um outro que era um espetáculo de homem, segundo uma delas que falava toda empolgada. Não paravam de conversar, emendando um assunto no outro.

Uma das crianças entrou no box ao lado do dele, e pode ver pelo reflexo no chão, apesar da visão não possuir a menor nitidez, que ela abaixara as calças e sentara no vaso sanitário. Ficou mais desesperado ainda. Se ele conseguia ver o movimento que ela fizera, provavelmente ela também poderia vê-lo. E saberia pelas feições, mesmo que disformes, que se tratava de um homem que estava no vaso ao lado do seu. E gritaria, com certeza!!!

Naquela agonia que lhe proporcionava um calor descomunal, o suor começou a escorrer pelo rosto. A posição que se encontrava também não parava de incomodá-lo, superdimensionada pela dor no nervo ciático. E não tinha a menor ideia de como sairia daquela situação, já que a cada mulher que ia embora, outras duas entravam. E a menina ao seu lado saiu sem perceber a sua presença. "Graças a Deus!", suspirava aliviado.

Júlio olhou no relógio e notou que já estava ali sentado há mais de 45 minutos. E nenhuma perspectiva de ir embora. Aquelas duas mulheres que ainda restavam no banheiro não paravam de falar de um creme para o rosto que fazia milagres, e que uma delas adquirira por um preço bem acessível.

De repente, ela decidiu mostrar o tal creme e abriu a bolsa. Ao retirá-lo de dentro dela, duas moedas caíram no chão e rolaram por debaixo do box onde ele se encontrava. Pavor total! Elas começaram a rir, vendo que havia alguém lá dentro. Ele, para que elas pudessem ir embora de uma vez, entortou-se todo, já que estava com as pernas esticadas, e empurrou as duas moedas para fora do box. Elas caíram na gargalhada, agradeceram, ainda rindo, e foram embora.

Silêncio... Levantou-se, quase não sentindo mais as pernas que estavam dormentes, abriu a porta bem devagar, e saiu. No mesmo instante, uma senhora entrou no banheiro, e olhou para ele, parecendo desconfiada. Ele retornou o olhar para a idosa, e, andando em direção à saída, disse, com a maior cara de pau:

- A Sra. não pode usar este vaso. Está entupido e só amanhã vou poder consertar.